Pé de cabra - Capítulo X - Refúgio
Eles passaram por uma enorme cruz de concreto que ficava a esquerda do caminho, estavam no morro do Capuava em Pirapóra do Bom Jesus, por onde a pequena caravana de sobreviventes transitava, a direita havia um caminho que se estreitava ao redor de uma outra elevação, eles seguiram por um morro numa estrada que ficava cada vez mais íngreme, minutos depois chegaram ao topo da montanha. Numa região plana e pavimentada, onde a certa distância podiam ver uma casa de alvenaria branca, onde se reuniam anteriormente os praticantes de voo livre que a usavam como base.
A ruiva parou com a Harley, a alguns metros da casa, ela desceu e sinalizou pra que estacionassem.
Os veículos estacionaram lado a lado, e os garotos desceram um tanto apreensivos, observando atentamente tudo ao redor.
Estava escuro.
Aqueles que tinham lanternas as acenderam.
Mayara aproximou-se da Pé de cabra e a abraçou, as duas garotas tinham a mesma altura, a ruiva foi receptiva e abraçou de volta carinhosamente.
-Muito obrigada! Você salvou a gente! - disse Mayara enquanto se afastava do corpo da bela ruiva, pra olha-la nos olhos. -Nem sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado. - disse a unica garota do bando em tom de gratidão.
-Relaxa, seus amigos teriam morrido por você se fosse preciso, eu só dei uns tiros nos lugares certos. - sorriu a garota de longos cabelos cacheados e dentição perfeita.
Os garotos se aproximavam e Tony estendeu as mãos pra ruiva, que com um sorriso, estendeu a mão direita a ele que beijou-a carinhosamente.
-Que Deus a abençoe e a seus tiros certeiros, se não fosse por eles, nós estaríamos perdidos. falou o garoto de óculos em tom de respeito, quase beirando o carinho e devoção por algo sagrado.
-Orra, nem me fale! - falou Lock se aproximando. Descobrir que o Pé de cabra existe e ser salvo por ele... quer dizer por ela não tem preço.
-Pé de cabra? - questionou a ruiva. - Como assim Pé de cabra?
-Nós passamos por um grupo de sobreviventes lá de Barueri, e eles contaram como foram salvos por uma horda de zumbis, por alguém que usava um pé de cabra vermelho. - explicou Tony.
A ruiva sorriu enigmática.
-E só por isso acham que eu sou o tal Pé de cabra?
O bando ficou em silêncio, olhando a ruiva que os olhava de volta.
-Até que agora, com você falando desse jeito, fica bem menos óbvio pra mim. - respondeu Mayara.
-Então você não é a Pé de cabra? - disparou Lock.
A ruiva sorriu.
-Meu nome é Maisa até onde sei, essa alcunha admito que não conhecia. - sorriu a ruiva.
-Então foi você mesma que salvou o grupo de Barueri? - inquiriu Daniel, curioso com aquilo tudo.
A ruiva retirou a mochila que estava em sua motocicleta, olhou os garotos que ainda esperavam por um esclarecimento.
-Vamos entrar logo criançada. Aqui fora tá frio e pelo jeito logo começa a chover de novo.
Lock fez menção de insistir no assunto, porém Tony o segurou pelo braço e meneou a cabeça negativamente.
-Deixa quieto mano, se ela quiser falar ela fala.
Maisa ouviu o comentário de Tony, e caminhou na direção da casinha branca.
-Vamos entrar, a noite foi bem agitada pra vocês, vou preparar algo pra comerem e acomoda-los.
-Putz, não precisa falar duas vezes! - disse Lock pegando as bolsas enquanto os outros faziam o mesmo.
-Bora então. - concordou Tony. -Daniel, Lucas e Mayara tragam as mochilas e tudo o que acharem dentro das viaturas, Lock e eu faremos o mesmo. - completou Tony instruindo os demais.
-Pódexa mamãe! - retrucou Daniel arrancando sorrisos dos amigos.
Maisa sorriu observando a interação entre eles.
-Antigamente isso aqui era usado por quem fazia parapente né? - questionou Tony voltando-se pra ruiva.
-Era sim, a altura e a distância da cidade ajudam muito pra esse ser um bom lugar pra ficar, mas existe um outro detalhe que faz toda a diferença. - respondeu ela.
Os garotos olharam enquanto a viam distanciar-se.
-Vocês vão descobrir isso agora mesmo. - falou Maisa, aproximando-se da entrada do local.
Era uma porta de ferro, com um portão de ferro cobrindo-a, havia uma corrente presa por um cadeado grande, daqueles que possuem combinação pra serem abertos.
Maisa abriu o cadeado e em seguida o portão e a porta e fez sinal pra que eles entrassem. Mayara passou primeiro, seguida de perto pelos garotos que traziam consigo as mochilas e as armas que haviam conseguido com seus finados agressores.
Com as luzes das lanternas perceberam que aquele cômodo estava completamente vazio.
Enquanto Maisa trancava a porta e o portão eles observavam ao redor, estranhando o fato de não haver nada por ali.
Após trancar tudo, Maisa passou por eles e iluminando com a lanterna foi pra um outro canto do cômodo, lá havia um alçapão que ela puxou pra cima, segurando sozinha, com uma das mãos, uma corrente de pesados elos prateados, com o esforço da garota, a pequena porta em forma de círculo se abriu e deixou a vista uma escada vertical dentro de um estreito túnel circular por onde só passaria uma pessoa por vez.
-Pessoal todos devem passar por aqui, depois de passarem um sensor vai travar essa porta automaticamente e ela só será aberta por dentro. - explicou Maisa enquanto enquanto apontava a lanterna na direção do buraco, que podia muito bem passar por toca do coelho que os levaria ao país das maravilhas.
-Nossa uma passagem secreta! - gritou Lock falhando em sua missão de conter o entusiasmo que tomava conta dele naquele momento.
-Agora a porra ficô séria! - completou Daniel arrancando sorrisos dos demais.
-Pois é, essa é uma das muitas coisas secretas que vocês vão descobrir hoje.
Ao dizer isso, a ruiva desceu primeiro com muita agilidade, a garota não pisava os degraus, ao invés disso deslizou segurando nas laterais da escada, ela chegou rapidamente ao fim do percurso, de onde acendeu uma luz que iluminou o túnel da escada. Todos desceram empolgados com aquele cenário inesperado que se descortinava diante deles.
A escada terminava num pequeno cômodo que tinha uma pesada porta de metal, a ruiva a empurrou e logo estavam diante de um longo corredor iluminado por lampadas.
-Achei que nunca mais veria uma lampada acesa. - disse Tony, não direcionando o comentário a alguém específico, mas feliz por ter certo controle sobre a escuridão novamente.
-Aqui vocês terão muitas coisas que lá fora ja são raridade, mais adiante tem uns quartos com camas. - disse Maisa apontando a frente e dando passagem aos garotos que se adiantaram e foram aproveitar o conforto que há muito deixaram de ter, ficando as garotas uma ao lado da outra.
-Cansada? - perguntou a ruiva.
-Muito, nem acredito que vou dormir numa cama de verdade hoje. Já fazia tempo que eu não tinha essa sensação.
-Que sensação? - que sensação falou Maisa segurando-a pelo braço e conduzindo-a de braços dados até uma pequena cozinha que ficava ao lado do quarto onde os garotos estavam.
Era um lugar aconchegante com uma mesa grande, ao redor da mesa seis cadeiras, uma geladeira antiga vermelha de contornos arredondados, um fogão de quatro bocas e um armário branco em volta da geladeira.
-Senta aí. - disse Maisa apontando pra uma cadeira. -Vou cozinhar pra vocês, hoje vocês vão experimentar a especialidade da casa. - disse ela abrindo o armario e retirando um pacote de Canjão. - Essa aqui é pra quando estamos com pouco tempo. - falou ela sorrindo enquanto enchia uma panela e colocava sobre o fogão.
Mayara olhava aquilo tudo maravilhada, o som da água caindo da torneira, das panelas sendo escolhidas no armário, do fósforo riscado e do fogão aceso, imagens e sons que ela sequer podia imaginar que tornaria a presenciar, coisas que outrora eram corriqueiras, naquele momento e contexto pareciam tesouros de inestimável valor, relíquias de outros tempos, quase perdidas na memória.
A garota de cabelo channel suspirou.
-Esse canjão vai cair muito bem, passamos tanto frio nesses últimos dias.
-Eu imagino, aqui tem chuveiros com água quente, avisa os meninos, vocês podem tomar banho, tem umas roupas nos quartos, roupas que eles também podem usar, quando voltarem a comida estará pronta.
-Nem sei como agradecer. - disse Mayara um tanto emocionada com aquela reviravolta em suas vidas.
A ruiva voltou-se pra ela, enquanto mexia o conteúdo do caldeirão com uma colher de pau.
-Relaxa, é muito ruim passar por tudo isso sem ter com quem conversar.
Após o banho todos se reuniram na cozinha, atraídos pelo cheiro convidativo do Canjão e de pães que acabavam de sair do forno
Todos estavam com agasalhos de moletom pretos, que haviam retirado dos guarda roupas nos quartos.
-Eu já tinha até esquecido a sensação de usar roupas limpas. - falou Tony, feliz por ter trocado as roupas, como há muito não fazia.
-Tava precisando mano, eu já tava todo assado. - falou Lucas sorrindo.
-Sem palavras dona Pé de cabra. - falou Lock, sentando a mesa e arrancando um sorriso da ruiva de cabelos cacheados.
Um caldeirão cheio de canja foi posto sobre a mesa pela ruiva de ombros fortes e femininos.
O cheiro agradável e convidativo aguçou os sentidos dos garotos, que por muito tempo tiveram de se contentar com o que encontravam pelo caminho e nem sempre o destino havia sido generoso como naquele momento.
A ruiva sentou-se a cabeceira da mesa e com um sorriso nos lábios olhou-os comerem.
-Aproveitem crianças, hoje é por minha conta.
Continua...

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