segunda-feira, 27 de julho de 2015

Redenção

Capitulo II    



    Azacdrael avistou a montanha que cercava a pacata cidade de Pirapora do Bom Jesus, sinalizou aos irmãos pra que pousassem em seu topo, formaram uma fila atrás do líder que pousou primeiro seguido de perto pelos quinze irmãos que formavam sua milícia celeste, ao tocar o solo olhou ao redor apreciando a beleza das montanhas.
    Respirou o ar puro e rarefeito propiciado pelas alturas.
    Deitou o olhar sobre os irmãos que repousavam as asas que acabaram de vencer longa distância, os anjos que o acompanhavam trajavam túnicas azuis, braceletes dourados, pés calçados por sandálias de tiras pretas, todos com peles alvas e cabelos claros, estiveram a seu lado desde o inicio da criação na Terra, da época em que sua milícia contava com quinhentos irmãos de luz, após a contenda da traição do Portador da luz muitos deles caíram.
    A cada dia o mal passou a fazer parte da vida e do modo de ser da humanidade, tornando-os vulneráveis aos ataques daqueles que outrora foram seus irmãos de luz.
    Olhou o horizonte procurando o Astro-rei, que àquele horário buscava abrigo, convidando o manto negro da noite a cumprir seu legado, até o momento em que viria rasgá-lo com seus raios de luz, devolvendo-se ao mundo num novo dia.
    Voltou-se aos irmãos que com muito interesse contemplavam o pôr do Sol.
    Azacdrael possuía a patente de primeiro general do elemento ar, um imponente par de asas brancas repousava à suas costas, vestia uma túnica azul escura, tinha penetrantes olhos azuis, as costas repousava na bainha sua espada, companheira inseparável de inúmeras batalhas, sua lâmina já havia derrubado incontáveis inimigos em momentos decisivos, rendendo a ele incrível fama entre os irmãos de luz e tornando-o um temível oponente no campo de batalha.
    O garboso anjo de longos e louros finos fios que escorriam pelos ombros, preocupava-se com a situação do diminuto exército celeste, desde o desaparecimento do lendário anjo Elemental do fogo, a situação havia ficado ainda pior, todas as milícias celestes sofreram numerosas baixas reduzindo o poderoso exército do Criador a metade dos seus combatentes.
    Aproximou-se dele um dos fiéis irmãos remanescentes, Diel, que com tom respeitoso o inquiriu:
-Irmão, quando seguiremos em frente?
-Ao alvorecer irmão, a cúpula dos líderes de milícias nos aguarda, escolhas importantes serão feitas. - disse olhando-o nos olhos.
-Nossa situação atual me preocupa, nosso exército nunca esteve tão reduzido, nunca as trevas estiveram tão poderosas, se não houver alguma intervenção do nosso Criador..., realmente passarei a temer o futuro. - disse Diel desviando o olhar na direção do horizonte.
-Tenha fé irmão, mesmo que venhamos a sucumbir diante do exército das trevas, haverá outros que virão livrar o mundo da ameaça do Portador da Luz, não sofra antes da hora.
    Diel meneou a cabeça em sinal positivo.
    Com um sorriso direcionou o olhar ao horizonte.
    Como eram belas as montanhas, cobertas por vegetação rasteira, tomadas pela noite exalavam convidativo perfume de terra molhada, sua condição de ser divino lhe permitia ver o mundo de forma muito mais abrangente.
    Por isso amava-as.
    Era simplesmente apaixonado por todas as coisas da natureza.
    Diel sabia o quanto era necessário lutar pra proteger a existência na Terra.
    Terra que cada vez mais se via ameaçada pela ira desenfreada dos exércitos das trevas que expandiam de forma assustadora sua influencia sobre a humanidade.
    Humanidade que a cada dia achava-se mais cética sobre a existência do Criador, tentando de varias formas buscar comprovações de que Deus não existia, fato esse que acabava por gerar nas pessoas a semente da descrença ou das falsas doutrinas que somente conduziriam a humanidade ao engano, dessa forma a fé verdadeira diminuía causando aos anjos perda significativa de força vital, tornando-os vulneráveis aos ataques demoníacos.
    Tentou afastar aqueles pensamentos observando o horizonte.
    Quando percebeu uma imagem assustadoramente familiar, aproximando-se velozmente uma nuvem de seres demoníacos alados vencia a distância e dali a alguns instantes iria tragá-los com violência.
    Olhou para os irmãos que como ele já haviam percebido o perigo, cada um via a sua frente ao menos cinquenta demônios, aproximando-se com velocidade avassaladora, a voz poderosa do general Azacdrael rasgou o silêncio da noite numa ordem:
-Irmãos, agrupem-se!
    Imediatamente os dezesseis anjos juntaram-se formando um circulo, de costas uns para os outros, com as asas abertas tornando suas aparências mais ofensivas, todos desembainharam suas espadas, levando-as à frente de seus corpos, ávidos por combate.
    Sabiam que não venceriam.
    Pior ainda.
    Sabiam que seria um massacre.
    Não haveria como pedir por ajuda, dificilmente haveriam anjos por perto pra oferecer-lhes auxílio.
    Estavam sós, haviam contado oitocentos demônios aproximando-se em ordem de batalha, sem dúvida aquela seria a ultima contenda de suas existências, que se findariam da forma pela qual haviam sido criados.
    Pra batalhar.
    Lutar e proteger em nome de Deus todos aqueles que viviam e proclamavam o amor.
    Os olhos dos anjos arregalaram-se transbordando luz que brilhava de acordo com a cor de cada par de globos oculares.
    Os demônios tocaram o solo com seus pés, patas e garras fétidos, lançando contra eles olhares carregados de ódio insano, fechando o cerco em volta dos guerreiros da luz, hesitando por um momento observando o pequeno grupo de anjos encurralados.
    Era isso que alimentava seus seres, o temor, o desejo de encher de trevas toda a criação, vencer e derrubar a única barreira que havia entre eles e a sua missão, os anjos.
    Demônios não eram anjos.
    Eram sentimentos ruins que tomavam forma.
    Pessoas que morreram com muito ódio e tiveram suas almas aprisionadas pelas trevas que os caídos emanavam.
    Mesmo que não quisessem a liberalidade de suas vidas não lhes deixava escolha no momento de suas mortes, todos eram tragados para o limbo do mal que a tudo consumia.
    Os anjos estavam em desvantagem, mas em momento algum demonstravam temor
    Postos lado a lado, contemplavam seu fim cada vez mais próximo.
    Os guerreiros da milícia de Azacdrael observavam com atenção os inimigos que de maneira aterrorizante os cercavam como que aguardando a ordem para o ataque.
    Até o momento não haviam avistado nenhum dos temíveis traidores originais.
    Aqueles que participaram da fatídica batalha ao lado do Portador da luz, estavam entre os inimigos mais temidos e respeitados.
    Não possuíam a aparência disforme e grotesca que os demônios apresentavam, ao contrario, conservavam as aparências de seres divinos, alguns deles eram até mais belos que os próprios anjos da luz, a estes eram concedidas as lideranças dos exércitos das trevas.
    Pouquíssimas vezes eram vistos em batalha, o que fazia com que sua presença num embate fosse algo realmente preocupante, seus poderes descendiam dos anjos elementais, dando a cada um deles poder sobre algum dos elementos de acordo com a sua natureza angélica, o que sem duvida fazia deles excelentes combatentes.
    Um momento de silêncio total!
    Olhos em chamas vermelhas acenderam-se.
    Um rugido gutural rompeu o silêncio numa ordem, que fez os guerreiros da luz aproximarem-se ainda mais de seu terrível e inevitável fim, anunciado por um escabroso demônio:
-Atacar!!!
    A demoníaca nuvem negra explodiu sobre a pequena milícia celeste, que foi esmagada com extrema violência.
    Os anjos golpearam com todo o vigor buscando derrubar o maximo de inimigos que fosse possível.
    Mas era inútil.
    A cada demônio golpeado, dez novos apareciam atacando com violência redobrada.
    O general da milícia golpeava com toda a força, empunhando sua espada, decapitava os inimigos e antes que as cabeças e corpos decapitados tocassem o chão reiniciava o ataque contra outro demônio, as chamas azuis provenientes de seus olhos pareciam incendiar tudo a seu redor, invocando o seu dom Elemental ele fez com que um tornado surgisse e arrasasse duas dezenas de oponentes, que foram esmagados pela violência do ataque que lançou-os ao chão, o poderoso general sabia de seu inevitável fim, por isso lutava com toda a gana e derrubava todos os inimigos que estivessem a seu alcance.
    Olhou em volta e viu que os irmãos pereciam sob as garras e espadas inimigas, sobre os irmãos vencidos dezenas de demônios destroçavam seus corpos, rasgando-os com poderosas mordidas, estraçalhando-os com toda a brutalidade.
    A cada momento a esperança minguava.
    Sem nada poder fazer viu um a um seus companheiros indo ao chão, vencidos.
    Os milênios de glória de sua milícia encerrar-se-iam naquela noite, diante da multidão de demônios eles cairiam.
    Algo pontiagudo rasgou-lhe na altura do ombro esquerdo, uma espada das trevas transpassava-o naquele momento, voltou-se e com violência golpeou o demônio que o feria, derrubando-o num só golpe, sentiu dores nos membros, garras afiadas o envolviam gerando dolorosas feridas que comprometiam seus movimentos, já não conseguiria suportar aquela situação por muito tempo.
    Os irmãos já estavam derrotados e jaziam aos pedaços sob centenas de demônios que como aves de rapina disputavam os pedaços de seus corpos celestes, destroçavam os anjos com voracidade, engolindo os pedaços dos inimigos vencidos.
    Azacdrael sentia-se perdido sem conseguir acertar a multidão que o cercava.
    Golpeava o nada, já sem direção perdido nas trevas que o envolviam.
    No meio de todo aquele desespero viu a cabeça de Diel ser devorada por um demônio de corpo volumoso e asas escuras disformes e pútridas.
    Os dentes afiados da criatura mastigavam com violência o rosto do bravo companheiro amante da natureza.
    Ao deparar-se com tamanha brutalidade decidiu que não desistiria da luta até sentir a vida esvair-se de seu corpo celestial,
    Juntou as ultimas forças e formou uma poderosa rajada na forma de um tornado que se lançou na direção daquele que findara Diel.
    Estraçalhou o demônio em milhares de pedaços, a rajada circundou seu corpo dando cabo de vários demônios a seu redor, alguns abriram caminho desviando-se do ataque.
    Nuvens negras tomaram o céu anunciando a tempestade que se aproximava, mas ele sabia muito bem que aquelas nuvens não significavam somente chuva, algo muito pior estava por perto, e acabou por anular o seu poder, fazendo com que seu tornado se dissipasse, os demônios aproveitaram a deixa e avançaram sobre o general celeste.
     Mais perfurações.
     Os braços poderosos do general sentiam as lâminas negras transpassando-lhes.
     Sem forças sentiu sua espada ir ao chão.
     O general não poderia mais conter a fúria demoníaca que se lançava contra ele.
     Os demônios avançaram sobre seu corpo ferido e o espancaram.
     Perfurações provenientes de garras afiadas feriam-lhe por todo o corpo, sem espaço para defesa, suas asas foram partidas e arrancadas de seu corpo pela extrema violência dos ataques, o brilho azul de seus olhos já havia se apagado, quando a turba demoníaca cessou o devastador ataque, abandonando seu corpo sobre a grama rala do cume da montanha.
     A visão turva lhe permitia enxergar os demônios afastando-se, abrindo um circulo a sua volta.
     Pôde contemplar a multidão de seres das trevas que lhe cercavam.
     Um corredor formou-se, e do meio das criaturas demoníacas uma aura de cor roxa acendeu-se poderosa, dando a noite envolvente tonalidade arroxeada, até mesmo os olhos demoníacos fecharam-se diante da intensidade daquela luz que se aproximava lentamente revelando em sua fonte um anjo belíssimo, com cabelos ainda mais escuros que a noite, corpo feminino de lindas curvas, pele alva como neve e penetrantes olhos azuis, tão ou até mais belos quanto eram os do lendário general Azacdrael, a túnica num tom de roxo escuro, a cor exercia maravilhoso contraste com a pele branca do anjo de feições femininas que se aproximava calmamente, às costas majestoso par de asas repousava, na cintura bainha com espada de lâmina prateada e dourada, coxas e canelas grossas e definidas envolvidas por tiras pretas que faziam parte das sandálias que envolviam seus delicados pés.
    Aproximou-se do general prostrado ao chão.
    Num delicado movimento abaixou-se agarrando-o pelo pescoço com uma das mãos, ergueu-o acima de sua cabeça.
    O poderoso Azacdrael ainda tocava o chão com as pernas, pois era muito maior que o anjo que o dominara, e que devia ter a altura de uma mulher mediana, em torno de um metro e setenta, enquanto que ele possuía invejáveis dois metros e trinta, porém todo seu porte não seria capaz de fazer frente ao inimigo.
    Ele estava vencido, não havia forças em seu corpo, não poderia incitar nova contenda.
    Indefeso.
    Aguardando por seu final.
    Ouviu uma vez mais os sons da noite.
    Sentiu o vento soprando poderoso, trazendo consigo os aromas noturnos que se misturavam ao agradável perfume daquele anjo que lhe olhava nos olhos.
    Os sons noturnos foram interrompidos pela magnífica voz feminina do anjo:
-Gostaria de dizer que é um prazer vê-lo, mas parece que nosso encontro não esta sendo prazeroso para ti valoroso irmão, ha tanto não nos vemos, parece que não sentiu minha falta.
    Sorriu mostrando os perfeitos e branquíssimos dentes e continuou:
-Desculpe-me se não o enfrentei em batalha, mas sabes muito bem que eu teria acabado com você e todos os seus anjos sem muito esforço, por isso decidi dar esse prazer às minhas tropas. - fez uma pausa lançando o olhar para a turba demoníaca que silenciosa assistia a tudo, voltou-se ao general vencido e concluiu:
-Sente medo pelos humanos? Sabe que iremos devastar o que restou das milícias celestes, não sabes?, Daí então será uma questão de tempo, pra completa extinção da humanidade, isso não te preocupa querido irmão?
    Azacdrael sabia o que aquilo significava, com a diminuição das milícias celestes os caídos e os demônios conseguiriam de volta a capacidade de estarem no plano físico, deixando assim de serem unicamente seres espirituais pra tornarem-se também seres físicos, provocando o fim da existência na Terra.
    Claro que aquilo o preocupava.
    Sabia estar derrotado.
    Não podia fazer muito pra impedir aquela situação, fora vencido em batalha e agora estava a mercê de um terrível traidor original, pior ainda, aquele era nada menos que o segundo anjo da criação, aquele sem duvida seria seu ultimo momento de vida, cairia e tornar-se-ia essência divina.
- Ouça a minha voz irmão, será o ultimo som que ira ouvir, nós venceremos a luz e acabaremos com o mundo que você viveu pra proteger, seu patético exército sucumbirá diante do novo deus, aquele possuidor da verdadeira luz vira a tona reclamar o trono e levar ao poder todos os capazes de enxergar a sua verdade!
    A decidida voz feminina calou-se, as palavras ecoaram no âmago de cada ser ali presente, cada demônio via-se instigado a seguir tais palavras que vinham cheias de motivação a causa a qual haviam entregado suas existências, seguiriam sua liderança até os portões do reino dos céus, caso fosse preciso.
    Azacdrael sentiu sua garganta ser agarrada com ainda mais força, abriu os olhos e num ultimo esforço as chamas azuis acenderam-se, acompanhadas da voz do general:
-Muito antes do fim dessa guerra..., Você voltara a lutar pela luz!
    Os olhos azuis do traidor original encheram-se de ódio, fazendo as chamas de seus globos oculares encobrirem o brilho do decadente general, apertou-lhe ainda mais o pescoço e baixou seu rosto pra mais próximo de si, passando obscenamente a língua pelo rosto ferido do gigante alado, rebateu:
-Você sempre falou demais, atrevido irmão!- ao concluir ergueu novamente o general e lançou seu corpo sobre o bando demoníaco que num breve momento estraçalhou o bravo guerreiro da luz.                Liberou do próprio cinto a bainha com sua espada e jogou-a sobre o chão, sagrando a sua arma a vitória em que ela permanecera embainhada.
    Asas brancas abriram-se fazendo a túnica roxa mover-se ao sabor do vento, enquanto o traidor original afastava-se em direção ao cume de uma montanha vizinha, deixando para trás a carnificina que havia liderado.
    As essências dos anjos derrubados naquele combate retornaram para a consciência de Deus, com exceção da essência do general que fez um caminho diferente, seu último esforço serviria pra renovar a fé de alguém que poderia fazer a diferença naquele embate.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Boa noite amiguinhos aventureiros.
Foi mal pelo tempo em que fiquei sem postar nada.
Muita coisa aconteceu nesses dias em que eu ainda desfrutava das férias do meu trabalho, senti falta de postar Pé de cabra, mas posso adiantar que estou preparando grandes surpresas para os próximos capítulos, vocês vão perceber que a espera valeu a pena.
Aproveito esse momento pra dizer que sou grato a todos aqueles que usaram seu tempo pra ler o que tenho escrito, sou muito grato a você que compartilha e comenta com os amigos sobre a saga Pé de cabra, tudo isso sem duvida é muito importante pro crescimento do blog e pra que eu consiga um dia publicar minhas histórias.
-Histórias? - Você esbraveja histérico.
-Sim amiguinho aventureiro. - eu respondo assustado diante de sua reação.
Histórias no plural!
Eu escrevo outras além da Pé de cabra, (pois é, eu escrevo, não termino mas escrevo)
Hoje postarei o primeiro capítulo da saga Redenção, nessa saga eu abordo a temática dos anjos, Redenção foi o primeiro trabalho que eu comecei, e agora que estou tendo um retorno tão legal do publico no blog irei retomar essa história. (e eu que pensei que só a minha mãe fosse curtir)
Então, sem mais delongas segue pra vocês o primeiro capítulo de Redenção, espero que gostem e compartilhem com os amigos e me sigam no blog. Isso ajuda muito em minha caminhada de escritor.

Redenção

Capitulo I

-Maldição! A que suplicio tenho de me submeter! Maldito seja o Deus que me fez isso! Arrancou de mim o que me faz falta agora, como dói, como me destroça por dentro essa terrível sensação!
As asas brancas empertigavam-se enquanto o belo corpo angélico contorcia-se aparentando agonia sem igual, lagrimas corriam dos olhos do ser belíssimo que se agitava em virtude das sensações que o acometiam, seus olhos brilhavam em chamas de ódio, não tinha como atingir Aquele que o castigara, mas podia atingir os Seus.
Podia acabar com todos aqueles que servissem a luz.
Sondava com a chuva os passos daqueles que se mantiveram ao lado do Criador, sabia de seus passos, sabia que planejavam algo, que se moviam desesperadamente.
Como presas assustadas diante de um inimigo que a cada dia tornava-se mais e mais poderoso.
Confabulavam entre si pra enfrentarem o mal do qual fazia parte, mas eles não eram nada diante de seu poder ancestral.
Ergueu-se do chão, engolindo toda a dor que ferozmente o consumia, não se renderia àquele ser ignóbil que se apegava à idiotice que insistia em chamar de amor.
Um riso formou-se subjugando a dolorosa expressão que tomara sua face.
Uma gota de chuva caiu.
Seu poder mostrar-se-ia em todo o seu esplendor, sabia o que tinha de fazer, frustraria os planos daqueles que O serviam, jamais se reuniriam pra juntarem forças e formar resistência, estavam todos condenados.
Um sorriso carregado de ódio estampava sua face feminina, enquanto suas magnificas asas brancas abriam-se, uma violenta tempestade caiu.
Levantou voo.
Deixando-se ser tocado pelas gotas que invadiam seus cabelos negros descendo por seus seios fartos e suas coxas grossas, encharcando sua túnica roxa, mas aquilo não o incomodava a chuva fazia parte de seu ser, o que o incomodava estava prestes a ser estraçalhado por sua fúria assassina.
Ao alcançar as alturas, uma nuvem demoníaca seguiu-o, milhares de asas negras agitando-se a seu comando, buscando por destruição, em busca de levar trevas a tudo que estivesse sob o julgo daquele que se dizia o Todo-Poderoso.
Desde a rebelião que marcou a queda dos anjos, eles se viram obrigados a aprender a sobreviver, e aprender a confiar somente em si mesmos, toda a influencia maligna que permeava seus seres, passou a atrair às almas amaldiçoadas dos seres humanos que se perdiam nas trevas, as asas negras estavam sob o comando daqueles que pela luz foram criados, mas contra ela lutavam agora, junto dos anjos caídos mais poderosos sempre estava uma grande nuvem negra, cheia de almas aprisionadas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pé de cabra - capítulo V

O arqueiro, a garotinha e o velho.

    Os gritos não pareciam vir de longe.
    Ele correu fazendo a curva próxima a rodovia Castelo Branco seguindo pela avenida Fernando Cerqueira Cézar Coimbra.
    O choro de criança ficou mais perceptível.
    Seguiu pela avenida que abrigava diversos galpões de empresas que há muito estavam abandonadas. Entre os galpões haviam terrenos baldios cercados por muros não muito altos.
    Os gritos da criança se intensificaram juntando-se ao seu choro.
    Ele parou diante de um muro, os gritos vinham de trás daquela pequena barreira de tijolos e concreto, que outrora serviam apenas pra delimitar espaços, mas naquele momento o separava de uma criança em perigo.
     Com rápidos movimentos ele subiu o muro que tinha por volta de dois metros de altura. Do alto ele se deparou com uma garotinha encurralada por um velho muito grande e gordo que trajava uma cueca samba canção azul de seda estampada com ancoras brancas e uma camisa de botões e manga curta bege que naquele momento estava aberta. O velho seguia ameaçadoramente na direção da garotinha.
-Calma eu só quero brincar com você. - disse o velho enorme chegando cada vez mais perto da menina. -Eu juro que vai ser rápido e que não vai doer muito.
    A criança gritou histericamente.
    Seu grito foi tão alto e carregado de desespero que o arqueiro sentiu um arrepio percorrer-lhe toda a espinha. O jovem de cabelos cacheados sentiu seu coração disparar.
    Agilmente ele retirou da aljava uma flecha, e dali de cima do muro ele a armou no arco, com tanta rapidez e precisão que sua presença sequer foi notada por aqueles que protagonizavam aquela cena desesperadora.
    A flecha foi disparada.
    Transpassou o joelho do velho que surpreendido pela dor lancinante caiu no chão, gemendo com a voz rouca.
     O velho ficou em choque por alguns instantes diante do ataque inesperado. Olhou o joelho e se deparou com uma flecha e muito sangue, surpreendeu-se ao ver pular do muro um homem alto de óculos escuros, com um arco na mão.
     Ele tirou da cintura um revolver calibre trinta e dois e apontou na direção do jovem de cabelos cacheados que correu em sua direção.
     O som do tiro encheu o ambiente.
     O arqueiro girou rapidamente pro lado se jogando no chão e se erguendo em seguida. Praticamente voou de encontro ao velho, que não conseguiu acompanhar os movimentos do homem que explodia diante dele. Antes que o ancião pedófilo pudesse perceber, um chute poderoso atingiu-o entre as pernas.
    Os olhos do velho reviraram de tal forma que poderiam ficar presos a sua nuca. A dor o envolveu e o fez repensar sua vida naqueles instantes de desespero. A ideia de tomar pra si crianças perdidas naquele novo mundo caótico já não parecia tão boa diante daquilo tudo.
    Seu grito desesperado foi calado pelo coturno que o homem enfiou em sua boca frouxa, após chutar pra longe a arma que estava em sua mão.
-Olha pra mim safado! - gritou o arqueiro.
    O velho se retorcia pelas dores e sentia as lágrimas rolarem dos olhos, enquanto era subjugado pelo arqueiro que tirou outra flecha da aljava, a posicionou no arco, e apontou pra ele tencionando a corda com vigor. A ponta afiada da flecha tocou a testa do pedófilo que tremia e chorava compulsivamente. Tirou o pé de sua boca e pisou o peito do velho pressionando com o coturno.
-Ele fez alguma coisa com você?! - gritou o arqueiro dirigindo-se a garotinha, mas sem tirar os olhos do velho.
    A criança assustada com o tom de voz do homem, permanecia agachada num canto protegendo o rosto com as mãozinhas sujas de poeira.
-Ele disse que ia cuidar de mim. - falou ela com a voz temerosa. -Disse que eu não ia sentir falta da mamãe e que depois ia buscar a Katchuça comigo. - nesse momento a criança gemeu, chorou brevemente e suspirou. - Mas eu tinha que brincar com ele antes. - disse a garotinha desatando num choro carregado de sofrimento.
    O arqueiro ficou comovido ao ouvir aquelas palavras vindas de uma voz tão doce, seu momento de comoção foi interrompido pela voz do velho que soou chorosa.
-Ô rapaz, não faça isso comigo não, eu divido ela com você, primeiro você brinca depois eu brinco, ela tá sozinha mesmo, antes ela aqui com a gente do que lá fora com aqueles malucos comedores de gente. - disse o velho desatando num choro de lamentação, demonstrando que realmente acreditava que aquilo era o melhor pra garotinha.
    O jovem encarou com frieza o velho, que naquele momento percebeu não estar lidando com alguém que compartilhava das mesmas opiniões que ele sobre o tratamento para com as crianças abandonadas.
-Tem mais alguém com ele? - perguntou voltando-se pra garotinha.
-Não. - respondeu ela secando as lágrimas.
-Tem alguma coisa sua aqui?
-Minha mochila ta na casa dele. - respondeu a pequena apontando pra um barraco de madeira a vinte de metros deles.
-Vai buscar ela, você vai embora comigo.
    A pequena levantou-se secando as lágrimas e correu na direção do barraco. Chegou rapidamente à porta e passou por ela adentrando aquele ambiente mal cheiroso. Com os pézinhos descalços buscou por sua mochila que estava sobre uma cama de casal num dos cantos do barraco.

-Você ia ficar com ela aqui? Usando o corpo dela? E depois ia fazer o quê? - soou a voz do arqueiro num tom de frieza assustador.
-Eu ia cuidar dela, ia proteger dessas coisas aí fora, ela ia ser minha e eu dela. - respondeu o velho chorando copiosamente no fim da frase.
    O homem que segurava o arco, ficou em silêncio enquanto ouvia os gemidos contidos do velho homem que tinha a ponta de uma flecha pressionando sua testa, onde a seta fazia pressão um pequeno filete de sangue começou a escorrer.
-Só isso?
-Só seu moço. - respondeu o velho juntando forças pra falar enquanto gemia e chorava. - Eu não sou um homem mal.
-Onde você achou ela?
-Debaixo da ponte indo pro shopping Tamboré. A mãezinha dela morreu numa batida seu moço. - falou o velho soltando um longo gemido no fim da frase.
-Quem é katchuça?
-É uma cachorrinha que ficou dentro do carro, é uma Fiorino branca sabe? - questionou o velho percebendo que o rapaz estava mais aberto a ouvi-lo.
-Sei. - respondeu o arqueiro afrouxando o peso do pé sobre o peito do velho, que gemeu uma vez mais. Tirou a flecha da testa do velho, tirou a tensão da corda do arco e guardou a flecha na aljava.
-É uma Fiorino branca, tá capotada lá. A cachorrinha tava chorando, a mulher tava morta e a criança tava sozinha, e eu não podia deixar a coitadinha abandonada.
-Claro que não, você só quer protegê-la né? - falou o arqueiro enquanto guardava o arco nas amarras da mochila.
-Isso moço eu cuido dela e ela cuida de mim. - disse o pedófilo ensaiando um sorriso.
    O rapaz de Rayban modelo aviador permaneceu em silêncio olhando o velho que naquele momento tentava se sentar com muita dificuldade, devido a flecha que transpassava seu joelho.
-Então seu moço? Eu to perdoado? O senhor segue sua vida e eu sigo a minha?
-Claro que sim. - respondeu o jovem olhando-o sem expressar seus sentimentos.
-Então me ajuda a levantar aqui, vou tirar essa coisa do joelho e fazer um curativo, porque a noite eu quero tá bem pra estrear essa menina. - disse o velho num gemido enquanto estendia a mão pro rapaz, que estendeu a mão direita pra ele, quando suas mãos se tocaram o arqueiro rapidamente retirou uma faca que estava num compartimento lateral da mochila com a mão esquerda e fincou no queixo do velho. A ponta da faca surgiu no alto da cabeça do pedófilo, que permaneceu com os olhos esbugalhados olhando aquele que cessaria os seus dias.
-Claro que te perdoo seu imundo, e encerro o seu sofrimento nessa vida, pra que seu sofrimento eterno no inferno comece logo! - gritou o arqueiro segurando o cabo da faca com as duas mãos, apoiando o pé no peito do velho e puxando a faca, abrindo a face do homem como um livro. O corpo do velho tombou pra trás, e o rapaz que empunhava a faca se ergueu ofegante quando voltou-se pro lado e percebeu que a garotinha o observava.

Continua...

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pé de cabra Capitulo IV

Maxilar de caveira, pele branca e cabelos ruivos cacheados...


-Eu to ouvindo o carro chegando! – disse Mayara caminhando rapidamente na direção do lampião. Ela o acendeu e foi para a lateral da porta, de onde começou a gritar. Os amigos inicialmente ficaram assustados.
- Não! Me soltem! Parem! Me deixem em paz! – seus gritos encheram o ambiente, e os amigos rapidamente entenderam o que se passava.
    Naquele instante o carro parou em frente ao posto.
    Quatro homens armados com pistolas e revólveres desceram do carro, e um permaneceu no volante da Blazer da policia militar do estado de São Paulo. Os homens ouviram os gritos da garota e correram na direção do posto.
    Eram todos homens que deviam ter entre trinta e quarenta anos, pareciam sadios e fortes, vinham correndo com uma excitação fora do normal.
-Cadê a cachorra? Quero tirar uma casquinha também! – disse o que vinha na frente, correndo e já tirando a camiseta.
    Quando ele estava a menos de dez metros da porta, um estrondo seguido do som de vidro se quebrando chamou a atenção de todos.
    Os quatro novos invasores voltaram-se para o carro a tempo de verem o motorista deslizar pela porta aberta da Blazer já sem vida.
    Antes de conseguirem entender o que acontecia, outros dois caíram com tiros certeiros na cabeça restando apenas o homem sem camisa, e um último indivíduo que atônito viu o companheiro nú da cintura pra cima, ter o joelho estourado por um tiro de doze. Suas pernas estremeceram ao sentirem o calor úmido de sua urina escorrendo, quando ele se viu diante da garota de cabelo chanel preto que empunhava a espingarda calibre doze.
    Ela veio em sua direção seguida de perto por quatro garotos armados apontando as armas pra ele, instintivamente o homem urinado apontou a arma de volta.
    Um novo estrondo foi ouvido.
    Seguido de um grito histérico do urinado que agora havia enchido as calças com algo mais que urina, os pedaços de sua mão caíram próximos ao companheiro derrubado com o tiro no joelho.
    Os dois gemeram escandalosamente, de tal maneira que chegou a incomodar todos ali presentes.
    Mayara calou o homem sem camisa pisando violentamente em sua boca.
-A cachorra ta aqui seu lixo! Mas você não vai tirar casquinha nenhuma! – gritou ela com a voz carregada de tanta ira que jamais imaginou ser capaz de sentir.
    Ela pisava com tanta violência que alguns dentes do homem caíram sobre o concreto frio. Ele sangrava e estava começando a engasgar com os próprios dentes quando ela chutou sua cabeça uma ultima vez, deu um passo pra trás, engatilhou a doze apoiando o cabo no ombro direito.
-E ai seu cretino? Você tá aproveitando o fim do mundo pra comer a força toda mulher que jamais ia olhar pra essa cara nojenta de estuprador?! - gritou ela esbravejando todos os sentimentos que explodiam em seu ser naquele momento.
    Os dois homens gemiam e choravam no chão, diante dos garotos que os observavam cheios de ódio no olhar.
    Acompanhavam a tudo atentos, quando o som dos passos do Pé de cabra se aproximando chamou a atenção de todos. Voltaram-se pra ele e perceberam que o lenço que usava tinha o maxilar e os dentes de uma caveira, enquanto que o capuz preto que fazia parte da blusa, mal deixava visível seus olhos. O fuzil estava preso às suas costas e o pé de cabra vermelho estava em sua mão direita.
    Ele se aproximou olhando os garotos e Mayara que permanecia apontando a doze para o homem caído, a garota estava com o rosto desfigurado pelos sentimentos que a acometiam naquele momento.
    O Pé de cabra foi na direção do homem que havia levado um tiro na mão e com um movimento rápido fincou o pé de cabra em seu joelho direito, arrancando dele um grito histérico.
     O som dos ossos se separando pôde ser ouvido por todos ali presentes, enquanto o Pé de cabra penetrava a ferramenta no joelho do homem que esperneava com a dor, soluçando e chorando.
-Pára pelo amor de Deus! Pára! Eu não aguento mais - gritava ele se debatendo no chã, mergulhado nas próprias fezes.
    Todos ficaram estáticos diante de tudo aquilo.
    Os gritos dele eram ensurdecedores.
    Eles estavam paralisados diante daquela cena até perceberem que não estavam mais sozinhos.
    Haviam zumbis se aproximando por todos os lados.
    Os tiros, os motores dos carros e os gritos os haviam atraído.
    Os garotos e Mayara olharam ao redor dando-se conta de que em pouco tempo estariam cercados, quando sua atenção foi tomada por uma voz feminina que nunca antes haviam ouvido:
-Vocês paravam quando alguém pedia pelo amor de Deus?! - esbravejou o Pé de cabra que naquele momento todos perceberam não ser um homem.
-Sabia que eu venho perseguindo o rastro de sangue e morte que vocês têm deixado?! Eu vou caçar todos vocês, vou lavar esse mundo maldito com o seu sangue! - gritou ela colérica, enquanto ele gemia e chorava soluçando.
    Naquele momento ela pôs a mão no lenço que cobria o seu rosto e o baixou, em seguida tirou o capuz que cobria-lhe a cabeça e parte do rosto, revelando uma mulher linda de longos cabelos cacheados num intenso tom de vermelho acobreado, de pele branca e traços delicados e marcantes.
    Ela abaixou-se ao lado da cabeça do homem e gritou com tamanha intensidade que ele sacudiu o corpo com o susto. Ergueu-se e arrancou o pé de cabra da perna dele fazendo-o urrar de dor, voltou-se para o grupo e questionou:
-Qual de vocês sabe dirigir?
    Daniel e Tony ergueram as mãos.
-Peguem as duas Blazers que chegaram primeiro, as duas têm combustível suficiente e tem mais munição pras armas que vocês estão usando agora. Vou na frente de moto, tenho um lugar seguro.
    Eles se entreolharam e menearam a cabeça em sinal positivo uns para os outros.
    Mayara e Lucas correram para o posto pra buscarem as mochilas, enquanto Lock foi para a terceira Blazer em busca de algo que fosse útil pro grupo. Como os veículos estavam na calçada do posto eles os alcançaram rapidamente.
    Todas as chaves estavam no contato como ela havia dito. Deram partida a tempo de verem os amigos voltarem com as mochilas.
    Lucas e Mayara foram com Daniel. Lock seguiu com Tony, trazendo consigo uma mochila camuflada cheia de munição e outra com itens de primeiros socorros encontradas no terceiro veiculo.
    Os zumbis chegaram próximos das bombas de combustível ao lado dos homens caídos.
 -Vocês vão deixar a gente pra morrer aqui?! - gritou aquele com o joelho estraçalhado pelo tiro de Mayara.
- Piedade é para os piedosos! - gritou a garota com o pé de cabra vermelho, que correu golpeando os zumbis que estavam no caminho, sem atingi-los em suas cabeças, apenas derrubando-os. Passou por eles rapidamente atravessando a rua e alcançando sua motocicleta do outro lado da rua, escondida atrás de uma placa grande. Era uma Harley Davidson Night Rod Special. Deu a partida e o ronco poderoso do motor pôde ser ouvido pelo bando que estava dividido nos veículos dos invasores, assim que ela arrancou as duas Blazers a acompanharam.
    Os dois homens tentaram rastejar pra dentro da loja de conveniências, porém foram alcançados por um grupo de ao menos vinte zumbis, que rasgaram suas carnes e os devoraram enquanto ainda podia-se ouvi-los gritar.