sábado, 10 de outubro de 2015



Capítulo XIII - Profanando o sagrado

    Choro de mulher.
    Era o choro da sua mulher.
    Sentiu as lagrimas turvarem sua visão, estava caído no chão, o tiro transpassara seu peito.
    Um grito.
    Grito de mulher.
    Era o grito da sua mulher.
    O sangue esvaia-se rapidamente.
    Estava caído na entrada da igreja. Os bancos o impediam de ver o que acontecia, mas os gritos enchiam seu coração de terror.
    Ao coro do desespero juntavam-se os gritos de sua filha adolescente.
    Risadas.
    Gargalhadas.
    Vozes de homens vinham de todos os lados. Nenhum deles veio prestar socorro, nenhum deles veio em paz.
    O homem que era pai e marido desfalecia lentamente, enquanto seu sangue ainda quente tingia profanamente aquele local sagrado. A alguns metros dele, mais precisamente no altar daquela igreja, a mulher e a filha eram violadas, dolorosa e repetidamente.
    Ele chorou.
    Estava com frio.
    Muito frio mesmo.
-Pé...
    A voz do homem não saiu mais do que um sussurro.  Ao seu lado uma mulher enorme sentada num dos bancos da igreja, observava os companheiros atendendo aos chamados de seus desejos carnais. Ela notou que ele balbuciava algo.
-Sa...
-Os meninos só querem diversão amigo. - falou ela baixando-se ao lado dele.
-Deus... - falou ele arfando.
    Os gritos das mulheres ficaram mais altos e tomados de desespero.
-Relaxa tiozão, meus meninos vão cuidar bem delas.
-Pésa ... Se... - arfou tentando não se engasgar com o sangue que lhe subia pela garganta.
-O que você tá falando aí? Fala alto porra! - gritou a enorme mulher que caiu na gargalhada ao lado do homem caído.
    Frio.
    Muito frio.
    A perda de sangue causava isso.
    O sangue ia  e o frio chegava, e com ele, em pouco tempo viria a morte.
    O homem caído sabia disso.
    Sabia que era o seu fim chegando, que a morte lhe agarraria pelos calcanhares, juntou as forças que restavam, sua mente clamava por consciência, não podia deixa-las.
    Não podia deixa-las.
    Eram tudo pra ele.
    Frio.
    Muito frio.
    Os gritos cessaram.
    Não lutavam mais.
    Cediam resignadas a agressão que sofriam. Os corpos masculinos suados revezavam o prazer pecaminoso no altar profanado. Uma cruz atrás do altar expunha um Cristo silencioso. O filho de Deus castigado no madeiro parecia sofrer com aquilo tudo, vendo violadas a sua igreja e suas filhas.
    O Cristo permaneceu imóvel.
-Deus... - gemeu o homem.
    O sangue escorria pelo canto da boca, enquanto ele balbuciava algo ininteligível, até mesmo para a mulher ao seu lado.
-Cala a boca aí o arrombado, suas meninas tão dando um show ali na frente, deixa eu curti essa porra em paz. - falou a mulher com uma frieza surpreendente na voz.
    Lagrimas turvaram sua visão, só conseguia enxergar os bancos da igreja. Ouvia as risadas e os palavrões.
    A consciência deixava-o aos poucos.
-Pesa sua...
-Arrombado do caralho, não cala essa boca! - a mulher se levantou e foi até um canto da igreja, onde os homens haviam deixado suas armas, pegou uma espingarda calibre doze e voltou com ela na direção do homem caído.
-Pesa Sua mão sobre eles Deus.
    O barulho estrondoso do tiro encheu a igreja, a cabeça do homem explodiu.
    As mulheres gritaram desesperadas, se debateram, tentaram num esforço animalesco se libertarem do domínio de seus algozes, queriam chorar, queriam um tempo, queriam se derramar em lágrimas e sofrimento.
    Queriam o pai e o esposo de volta.
-Relaxa doutor, meus meninos vão cuidar bem dos brinquedinhos deles. - falou a mulher enorme sorrindo o seu sorriso doentio.
    O tiro, os gritos de desespero e os gemidos invadiram os ouvidos de Bia, mas não antes dela ouvir as últimas palavras daquele homem:
    "Pesa Sua mão sobre eles Deus."
    Ela ficou estática por alguns instantes, enquanto observava seus meninos se divertindo com os novos brinquedos. Embora não quisesse admitir aquelas palavras tiveram algum efeito sobre ela.
-Bia! - gritou um dos homens que montava guarda do lado de fora da igreja.
    O grito tirou-a de seu estado de torpor e a trouxe de volta a sua posição de liderança.
    Com a espingarda calibre doze em mãos ela caminhou na direção da porta.
-Tão vindo Bia, tem um monte deles vindo aí!
    A igreja em que os últimos acontecimentos se desenrolaram fica no centro histórico da cidade de Santana de Parnaíba, varias ruas e escadarias convergiam na direção dela, e de todos esses caminhos dezenas de mortos vivos surgiram.
-Porra! Fudeu! - gritou Bia, em seguida voltou-se para os homens dentro da igreja.
-Acabo a farra bandidagê, tem varios "podrão" chegando, bora abrir caminho pra sai fora.
-E o que a gente faz com as "vadia"? - gritou um dos homens no altar.
-Passa geral! - gritou Bia.
    Um tiro foi disparado, e a mãe tombou diante da filha que gritou no limite de suas forças e controle emocional.
    Nesse ínterim os gritos dos homens do lado de fora foram ouvidos, estavam sob ataque.
    A garota estava nua, prostrada sobre o corpo da mãe. A movimentação dos homens ao redor tornou-se frenética, varias criaturas invadiram a igreja, seus agressores ainda nus em sua maioria, corria em direção as armas.
    Bia atirava nos que se aproximavam, os tiros ecoavam no interior da igreja, os pedaços dos zumbis juntavam-se a pedaços dos bancos, das paredes e do piso. Os gemidos das criaturas eram ensurdecedores e elas avançavam ferozmente contra os homens dentro da igreja.
    Um grito masculino chamou a atenção de Bia, a alguns metros dela um de seus meninos fora derrubado por três das criaturas.
-Helião?! Porra!
    Ela correu na direção do homem loiro de olhos azuis, atirou duas vezes acertando a primeira criatura, outras duas permaneceram intactas, a mulher enorme engatilhou a doze mais uma vez, mas o tiro não saiu, as balas acabaram.
-Que porra! - gritou ela.
    Segurando a arma pelo cano ela a manejou como se fosse um taco de baseball e acertou na têmpora a primeira das criaturas, uma mulher gorda que usava, um vestido preto sujo de sangue, fezes e vômito, ela caiu sobre os bancos com o impacto violento, tombando com um enorme buraco na cabeça. O outro, um homem sem um dos braços mordia violentamente o peito de Helião, o loiro que pertencia ao bando de Bia, os gritos do homem enchiam aquela mulher bruta de terror.
-Porra Helião! Porra! Não morre caralho!
    Um golpe perfeito na nuca do ultimo zumbi jogou-o contra a parede, a criatura fez menção de levantar-se, porém o cabo da espingarda esfacelou  sua cabeça, tamanha a força da mulher que a empunhava.
    As criaturas que entravam pela porta da igreja foram alvejadas pelos homens, que recompunham-se rapidamente, poucos instantes depois a entrada estava liberada.
    Enquanto os homens se agrupavam ao redor de Bia aguardando direcionamento, ela acalentava Helião tomando-o nos braços.
-Não quero morrer Bia, não me deixa! - choramingava o homem ferido, haviam mordidas em seu peito e braços.
    A mulher já havia percebido o funcionamento daquela praga, sabia que não restava muito tempo pro comparsa.
-Caralho Helião! Como você deixou essa porra acontecer?! - falou ela indignada.
-Não me deixa morrer Bia! - gemeu o homem caído.
    Os homens ao redor se olhavam aguardando o desfecho daquela cena.
    Tiros lá fora.
    Haviam mais das criaturas chegando, em pouco tempo a igreja estaria infestada.
-Porra Bia, vamo embora logo! - gritou um dos homens do lado da mulher.
    Ela se ergueu deixando Hélião no chão.
-Eu não quero morrer Bia, não me deixa aqui porra!
-Caralho Hélião, você vacilou parça, sabe que isso não tem cura. Aí você me fode Hélião. - gritou a mulher mantendo no olhar uma expressão de dor, que se misturava a raiva que sentia, não queria que fosse daquele jeito, mas naquele novo mundo as decisões fáceis estavam em extinção.
    Bia se ergueu, ela tinha de se manter fria, era líder daqueles homens, não podia abandonar sua posição, não era hora de demonstrar fraqueza, simplesmente não podia. Aqueles homens violentos só respeitavam a força, precisavam de alguém forte à frente.
    Considerava Hélião. Eram conhecidos de bairro, antes do crime, antes da cadeia já o conhecia, era praticamente um irmão pra ela, por isso ela mesma tinha que fazer.
-Arapuca! Me passa a doze! - falou ela voltando-se pra um dos homens ao seu redor.
    Arapuca era um homem de quarenta e cinco anos, pele queimada do Sol e já com cabelos brancos. Ele hesitou por um instante.
-Porra Bia? - falou ele como um advogado solicitando que a sentença fosse revogada.
-Cala boca porra! Acha que eu quero fazer isso?! - esbravejou a mulher no limite de sua paciência. Ela tomou a arma da mão de Arapuca, que estremeceu ao perceber que não era hora de reivindicar uma democracia naquela sociedade de ex-presidiários sobreviventes.

    Hélião sentia a consciência despedir dele, e pouco a pouco percebia que não haveria escapatória, mal podia entender o que o ocorria ao seu redor, a dor era insuportável, sentia o sangue misturar-se ao suor que corria pelo corpo, os olhos azuis lutavam pra permanecer abertos, procurando esperanças ao redor. Tudo o que encontraram foi o desespero e a aspereza daquelas pessoas que nos últimos tempos foram seus companheiros de sobrevivência.
-Eu quero viver Bia. - gemeu o homem caído, em seus últimos suspiros desesperados.
    Bia engatilhou a doze.
-Também quero irmão. - respondeu a mulher.
    O som estrondoso do tiro encheu a igreja uma vez mais, os pedaços da cabeça se espalharam diante do grupo. Eram homens endurecidos pela cadeia, ainda assim sentiam quando algum dos seus morria, sabiam que naquele novo mundo quantidade era equivalente a força.
-Bora porra! Não é hora de choradera! - gritou Bia tirando todos daquele momento de lamentação.
    Os homens correram pra fora da igreja, os zumbis vinham de varias direções, eles abriram caminho entre as criaturas atirando, Bia corria com a doze nas mãos.
-Bóra! Todo mundo pros caminhões! - gritou a mulher.
    Os veículos estavam parados nas ruas ao redor da praça em que ficava a igreja, todos conseguiram alcançar os caminhões.
    Enquanto ajeitavam-se pra fugir o som do motor de uma moto chamou a atenção de alguns deles, inclusive de Bia. De trás da igreja, numa moto a garota que há pouco serviu de diversão pra eles escapava nua da cintura pra cima.
-Olha lá! -  gritou um dos homens na caçamba do caminhão.
    A garota seguia na direção oposta a deles, tomando distancia rapidamente.
Bia olhou ao redor, seus homens haviam conseguido algumas motos no caminho do posto até o centro de Santana de Parnaíba.
-Quero aquela vadia de volta, ela é nossa propriedade! Arapuca e Nelsinho, vão atrás dela!
    Sem pestanejar os homens se armaram de revólveres e tomaram duas motos, e rapidamente arrancaram no encalço da garota.
-Essa vadia tem de entender que ninguém foge da Bia. - falou a líder do bando, vendo seus homens caçando a garota.

Continua...

sábado, 3 de outubro de 2015



Capítulo XII - O bom homem com o arco

    Naquela tarde, após terem deixado os corpos da família de pedófilos pra trás, foram até a Fiorino, onde encontraram morta a mãe da garotinha. Ele já sabia da morte da mulher, ainda assim ficou com aquela sensação ruim que a cada dia passou a fazer parte de suas experiencias, a sensação de que as coisas sempre pioravam, de que na maioria das vezes as piores situações seriam as mais comuns.
    Conseguiram retirar a cadelinha de dentro da Fiorino, ela estava assustada, mas estava bem. Ele juntou os pertences da criança e as levou do local do acidente, pra um dos galpões abandonados da avenida Fernando Cerqueira Cézar Coimbra.
    A pequena seguiu silenciosa por todo o caminho, abraçada a cadelinha como se depositasse nela as esperanças de que a dor e o sofrimento que a acometiam pudessem ir embora logo.
    Instalaram-se numa pequena cozinha dentro do galpão, havia um gabinete de pia de quase dois metros de comprimento, onde o arqueiro forrou com grossas cortinas, criando uma pequena "toca", onde deixou a menina e a cadelinha.
-Curtiu sua toca? - perguntou o homem com o óculos modelo aviador, sentado em posição de lótus, enquanto mexia nas cordas do arco composto sobre o colo.
    A criança que estava deitada entre as cortinas, abraçada a filhote de Pastor Alemão, olhou em silêncio aquele homem por um instante, até responder num fio de voz.
-Curti.
    Ele sentiu a tristeza naquela voz infantil, mas sua expressão não se alterou enquanto falava com a menina. Ela permaneceu observando-o, retirou da mochila o revólver calibre 38 de cano curto que havia tomado do velho.
-Isso aqui vai ficar com você. - falou ele estendendo a arma pra ela.
    A menina ficou parada observando aquele homem incomum, que havia salvo sua vida, oferecendo-lhe uma arma.
    Ela hesitou um instante.
-Eu sei que você tá triste e que provavelmente sua tristeza ainda vai durar um tempo, dizendo isso ele recolheu o braço e pos o revolver no colo. - Mas você precisa entender uma coisa, esse mundo pertence aos que sabem se recuperar rapidamente, aos que sofrem e conseguem ficar alertas logo em seguida.
    A pequena olhou-o em silêncio
-Não dá pra trazer a sua mãe de volta, não dá pra trazer a sua vida de volta, nem posso garantir que daqui em diante será bom. - dizendo isso ele coçou a barba escura.
    Os olhos da garotinha marejaram e ela apertou ainda mais a cadelinha, de dentro da sua toca de gabinete de pia.
-Mas eu te prometo dua coisas. - ao dizer isso o arqueiro pegou as flechas que estavam no chão ao lado dele.
    A criança mudou o semblante, a tristeza tinha dado lugar a atenção.
-Primeiro prometo que nunca mais você será tocada por algum safado, enquanto eu viver, e que se isso vier a acontecer o infeliz terá um destino ainda pior do que tiveram aqueles imundos que encontramos hoje. - dizendo isso ele fez silêncio e passou a inspecionar as flechas que restaram.
    A menina deixou de lado o ar assustado, seus olhos tristes adquiriram uma luz que há muito os havia abandonado.
    Esperança.
    Aquele homem de barba e óculos escuros havia renovado as suas esperanças.
    Ela se sentiu protegida diante dele, talvez fosse essa a sensação de ter um pai de verdade, de ter por perto um homem determinado a protegê-la.
    Ela ensaiou um sorriso.
    Olhou aquele homem forte e de aparência incomum trocando as pontas das flechas, ele não olhava pra ela enquanto fazia aquilo, estava concentrado na tarefa de restaurar as suas setas pra que estivessem prontas quando o perigo chegasse novamente.
    O sorriso saiu mais fácil dessa vez.
    Os olhos cor de mel do arqueiro espiaram por cima dos óculos escuros, enquanto ele manuseava uma ponta afiada. A pequena fitava-o com curiosidade.
-Qual é a segunda coisa? - perguntou a voz feminina pré púbere.
-A segunda coisa? - perguntou o arqueiro ainda de cabeça baixa.
-Qual é?
    Ele ergueu a cabeça, ajeitou os óculos escuros e passou a língua nos lábios.
-Eu prometo que vou te ensinar.
-Ensinar o quê?
-Tudo o que eu puder ensinar pra fazer de você uma pessoa tão forte quanto eu.
    Ela olhou-o um instante,  só o silêncio falou durante aquele momento. Uma lágrima rolou no rosto da criança.
-Queria ter aprendido isso antes. - dizendo isso ela fechou a porta corrediça do gabinete, lentamente.
    Ele ficou do lado de fora observando, ouviu o choro dela vindo da toca improvisada, percebeu que ela se aconchegava lá dentro.
-Eu também queria criança. Você não faz ideia do quanto. - aquelas palavras saíram baixas, sem o menor desejo de serem ouvidas, apenas o sussurro cabisbaixo de alguém que teve de se tornar forte, impulsionado pela fúria de um mundo que já não aceitava as sutilezas como algo saudável.
    O arqueiro se levantou, de pé, puxou a corda do arco até o limite, depois a trouxe de volta, impedindo que um tiro seco fosse disparado.
    Respirou fundo.
    Fez uma pausa olhando pro gabinete fechado, ouviu o choro da menina, passou a mão na testa e invadiu com os dedos os cabelos, lembrou de algo na mochila, correu até ela e voltou parando novamente diante do gabinete.
-Princesa, você gosta de M&Ms?
-Não. - respondeu a voz chorosa lá de dentro.
-Que bom, porque eu não tenho M&Ms. - falou o arqueiro do lado de fora.
    De dentro do gabinete ele ouviu um risinho.
-E de Twix? Você gosta de Twix?
-Tem Twix aí?
-Não sei, você gosta de Twix?
-Gosto, é o meu chocolate preferido!
-Hum, então acho que você tá com sorte! - falou o arqueiro em tom de comemoração.
    A porta do gabinete se abriu, e ela pôs a cabeça pra fora.
-Por que eu tenho aqui comigo um saco de balas de gelatina! - falou ele como se estivesse anunciando ao ganhador da Mega Sena o valor de seu prêmio.
    Ela desfez o sorriso e encarou o arqueiro.
-Para de drama, senão eu vou comer tudo sozinho. - falou ele sorrindo.
    Diante daquilo, uma lembrança criou um pequeno filme na cabeça da menina, sua mãe simplesmente amava balas de gelatina, principalmente aquelas de ursinho iguais as que estavam nas mãos do arqueiro. Sua mãe era enfermeira e trabalhava no turno da noite no Sameb em Barueri, em virtude disso elas simplesmente não tinham muito tempo juntas, mas todas as vezes em que paravam pra ter um momento mãe e filha, sua mãe dava um jeito de arrumar um pacote daquelas balas.
    Lembrou-se de estar , envolvida no abraço da mãe, em noites frias como aquela, enquanto assistiam a algum filme juntas. Lembrou que no cinema, além da pipoca e do refrigerante aquelas balas sempre estavam presentes.
    Ela sorriu.
    Sem planejar, sem ao menos desejar ela se pegou sorrindo.
    O som do plastico se rompendo e dos dedos do arqueiro remexendo as balas invadiu os seus ouvidos.
-De qual cor você gosta mais?
-Da azul! - respondeu ela sorrindo.
-Opa, vem cá ursinho azul, a casa caiu pra você malandro.
    Os olhos dela se encheram de luz, sua mãe também brincava daquela forma como se estivesse caçando os ursinhos de gelatina.
-Aqui princesa. - falou o arqueiro estendendo a mão aberta com dois ursinhos azuis. -Eu também gosto mais dos azuis, mas esses são pra você.
    As mãos se encontraram, e uma sensação boa envolveu os dois, por um instante ela voltou a ser criança, esquecendo-se das agruras daquele novo mundo, esquecendo da morte da mãe, e por um momento aquele homem, endurecido pelo terror daqueles novos tempos, lembrou-se de como era ser pai.
    Naquela noite eles conversaram.
    Ele contou que se chamava Vicente
    Ela contou que se chamava Ráissa.
-Raíssa? - perguntou ele.
-Não, Ráissa igual se pronuncia o "ra" de barata.
-Interessante, por que se pronuncia assim?
-Meu avô era armênio, ele falava desse jeito, minha mãe queria que eu tivesse algo dele.
    Ela contou também sobre o genocídio armênio e sobre como os seus bisavós escaparam do massacre com seu avô ainda criança.
    Ele prestou atenção a tudo o que ela disse, surpreendeu-se com a forma clara que ela usava pra falar sobre si e sobre a família, apesar de pequena ela tinha um vocabulário variado.
-Quantos anos você tem?
-Doze, e você?
-Trinta e cinco.
-Minha mãe também tinha trinta e cinco, você ia gostar dela.
-Imagino que sim, se ela fosse tão linda e agradável quanto você.
    A pequena Ráissa sorriu, olhando aquele homem e pensando em sua mãe, imaginou que seria bom tê-lo como pai, imaginou como seria passear com ele, sua mãe e a cadelinha, no tempo em que a praga ainda não havia tomado conta do mundo.
    A cadelinha saiu da toca e foi na direção do arqueiro que estava de pé, ele baixou-se e sentou na posição de lótus novamente, pegou Katchuça nos braços e a aconchegou entre as pernas, a filhote de Pastor Alemão abanava o rabo, até se aconchegar no homem e adormecer.
    Ráissa, olhou-os interagirem sentindo uma mistura de sentimentos invadirem-na, a tristeza por não ter mais sua mãe, pra que as duas fossem protegidas pelo arqueiro, alegria por terem encontrado Katchuça e por elas estarem acolhidas e protegidas por ele.
    Ela pensou em tudo e em todos que havia perdido, pensou em como se sentia mal estando só, diante dos homens maus que a encontraram, então lembrou-se do velho, lembou-se do que ele havia tentado.
    Ficou assustada.
    Enojada.
    Lembrou-se de como o velho a olhava.
    Olhou pro homem com barba de viking e coque de samurai diante dela, ele olhou de volta , pôs a mão no pacote de balas de gelatina e ofereceu a ela.
-Pega mais, senão eu vou acabar com tudo.
    Ela ficou parada, seus olhos se encontraram, ele sorriu.
-Que foi criança?
-Nada.
    Ele baixou o olhar e continuou a acariciar Katchuça.
    O Olhar dele era diferente, não havia a maldade, nem a luxúria que haviam no do velho, havia algo bom.
     Os sentimentos gritaram nela outra vez.
     Medo.
     Medo.
     Medo.
     Temeu perdê-los também.
     Caminhou na direção da mão estendida, desviou-se, baixando e pegando o revólver no chão.
     O arqueiro parou pra observar a pequena. Ela tomou a arma na mão, abriu o tambor e conferiu as balas, depois guardou-a na parte de trás do short, em seguida sentou-se ao lado dele.
-Você é esperta pra sua idade né?
-Meninas evoluem mais rápido que meninos.
-Onde aprendeu a atirar?
-Minha mãe namorou um policial, ele levava ela pra atirar, e ela dizia que todas as garotas deviam saber se cuidar.
-Garota esperta a sua mãe.
    Mais tarde naquela noite ele havia encontrado uma lampada de emergência, a retirou da parede onde se encontrava e levou-a para a pequena cozinha onde haviam se instalado.
    O som da chuva lá fora se misturava aos gemidos dos mortos vivos que passavam na estrada, não muito longe onde eles estiveram, seguiram na direção do terreno baldio, onde havia quase uma centena das criaturas, fartando-se nas carnes da família de pedófilos deixados pra eles pelo arqueiro.
    O arqueiro se voltou pra garota, quando lá fora ouviu o som de freadas, em seguida uma explosão, ele correu na direção da janela que tinha vista para o portão da frente do terreno onde estava o galpão abandonado.
-O que ta acontecendo?! - gritou Ráissa.
-Não sei, mas tem gente entrando. - falou o arqueiro olhando pela janela, enquanto preparava o arco e ajeitava as flechas na aljava em suas costas.

Continua...

sábado, 19 de setembro de 2015

   


   
   


Pé de cabra - capítulo XI - A bandida, o policial e mais de mil deles



    A voz decidida da mulher ecoou no âmago de cada um daqueles homens.
    O grupo de ex-presidiários sobreviventes, tinha diante de si um novo objetivo, uma vez mais suas vidas seriam guiadas por um sentimento podre, uma vez mais sua direção seria norteada pela vingança.
    A enorme Bia tonelada, caminhava pra fora da cobertura do posto, sentindo no ar toda a excitação animalesca que suas palavras causavam naqueles homens, que não tinham o costume de respeitar limites.
    O policial militar, que avisou sobre as transmissões de rádio da noite anterior, foi atrás dela.
-Não vamos desperdiçar pessoal e munição pra você brincar de gato e rato com um bando de moleques, seu irmão deu motivos de sobra pra ter esse fim.
-O que você tá falando aí verme?! - gritou a mulher voltando-se pro policial, que a encarava com assustadora frieza.
-Você ouviu o que eu disse, não vamos causar mais problemas a esse pessoal, o safado estuprador do seu irmão, já deve ter gerado traumas o suficiente neles. - sentenciou o policial que trazia consigo um imponente facão e descansava a mão direita na arma guardada em seu coldre.
    O policial em questão era o cabo Élcio, e os policiais militares que ali se encontravam estavam sob seu comando, desde a época em que haviam perdido contato com o comando do estado eles permanceram juntos, tentando encontrar e auxiliar outros grupos de sobreviventes.
    Élcio era durão.
    Mestre de Kung Fu e exímio atirador.
    Não tinha problema algum em lidar com os mortos, sua liderança firme e ponderada fez com que atravessassem todo aquele período sombrio sem nenhuma baixa.
    Até ali haviam encontrado poucos sobreviventes, mas encontraram diversas provas de que a humanidade atravessava uma de suas piores crises morais. Pessoas saqueavam, roubavam, matavam e estupravam, tão ameaçadores quanto os mortos vivos, eram os sobreviventes, ele sabia disso e sabia que teria problemas com aquela mulher desde o momento em que a viu pela primeira vez.
    Fabiana ou Bia tonelada como era conhecida no crime, cumpria pena por tráfico de drogas e homicídio.
    Não era nenhuma perita na cozinha, mas ficou muito conhecida por sua predileção por esquentar no microondas. Muitas de suas vítimas perderam a vida dessa maneira barbara, basicamente o infeliz fica preso no meio de uma pilha de pneus, sobre ele se despeja uma quantidade farta de gasolina, ou qualquer liquido inflamável que se tenha a mão.
    E uma fogueira é acesa.
    E uma vida se apaga.
    Muitas vidas se apagaram pra que aquela mulher conquistasse entre os homens do crime.
    O nome Bia tonelada era temido na zona oeste de São Paulo, o próprio Élcio ja tinha ouvido falar dela, ele nunca imaginou que um dia seus caminhos iriam se encontrar, ainda mais dentro daquele contexto tão bizarro.
    Quando os mortos voltaram a caminhar e a atacar os vivos, os esforços do governo brasileiro mostraram-se ineficazes depois de poucas semanas, em poucos meses o numero das criaturas já havia ultrapassado o dos humanos.
    Com o descontrole dos superiores a maioria dos policiais abandonou seus postos e tratou de lutar por sim mesmo e por aqueles que realmente lhes importavam. Diversos presídios foram abandonados, fugas em massa ocorreram aos montes por toda a extensão do território nacional.
    Não bastasse apenas a praga crescente e inacabável dos mortos vivos, a sociedade também havia sido bombardeada por dezenas de milhares de condenados que ganhavam as ruas e que não tinham mais os limites da lei para conter os seus atos, alguns deles perceberam que teria sido melhor permanecer dentro dos presídios.
    Outros perceberam que aquela terra de ninguém, outrora conhecida como Brasil, havia se transformado num mundo de novas possibilidades, onde os sonhos de dominação tornar-se-iam realidade.
    Bia tonelada, havia encontrado naquele novo mundo a chance de por em pratica seus desejos psicóticos, de ver a sociedade que um dia a marginalizou, em virtude da opção sexual e da pobreza, sangrar e esvair-se. Ela havia liderado um grupo de insurgentes durante a ultima rebelião do presídio feminino em que se encontrava.
    A maioria dos agentes penitenciários abandonara seus postos, ela e suas comparsas aproveitaram a chance pra acertas as contas com os desafetos.
    Alguns empalamentos com vassoura a golpes de marreta, pescoços cortados e sangue muito sangue depois a trouxeram até aquele momento.
    Ja na rua passou a se juntar a membros de outras facções, deixando no passado velhas rivalidades em nome de um bem maior:
    A sobrevivência.
    No inicio somente a sobrevivência.
    Com o passar do tempo a sobrevivência do mais forte.
    Autoritária, porém astuta, Bia sabia lidar com a bandidagem, sabia lidar com os apetites dos homens do crime. O dinheiro já não tinha valor algum e o mundo havia se transformado num grande self service, ela os ajudaria a se servirem, contanto que sua liderança seguissem sem questionamentos.
    Mas Élcio questionava.
    A junção de suas forças acontecera há pouco tempo, Élcio e os soldados que o seguiam haviam ajudado alguns dos seus homens a escaparem de uma horda que os encurralou enquanto buscavam por suprimentos, desde então os grupos haviam se juntado, mais pelo desejo de unirem forças do que por qualquer possibilidade de simpatia mútua.
    Não demorou muito pra que ambos os lados percebessem que aquela aliança não iria longe.
    A mulher se aproximou do policial, com o cabo da marreta sobre o ombro, seu bando juntou-se ao seu redor, os policiais que acompanhavam o cabo Élcio se juntaram a ele, eram dez no total contando com o próprio cabo da PM, mestre de Kung Fu.
    Os policiais empunhavam suas armas de fogo, portavam pistolas 9mm e metralhadoras .40.
    O clima tenso tomou conta do posto abandonado. O Som de gemidos e dos passos arrastados foi percebido por um dos policiais.
-Tem mais daquelas coisas chegando aí pessoal! - falou o homem fardado.
    Subindo a rua vinha uma horda de encontro ao grupo, ao menos quarenta mortos vivos, marchavam como o exército da morte, com o único intuito de satisfazer a interminável fome que nunca os abandonava. De dentro da mata que ficava do outro lado da rua, mais das criaturas surgiam.
    Os tiros os atraíram.
    Os mortos seguiam todo e qualquer som que chamasse suas atenções, gritos, explosões, tiros, qualquer coisa que pudesse denunciar a localização da presa.
    Eram caçadores.
    Sem inteligência, sem muitas habilidades e sem nenhuma estratégia.
    Guiados unicamente por um instinto animalesco que os levava a querer saciar sua fome infindavel, juntavam-se aos montes e é aí que morava o perigo.
    A quantidade.
    Os homens sobre o caminhão perceberam estarrecidos que pouco depois da horda que avistaram inicialmente, a cerca de cem metros, vinha uma outra horda ainda maior.
    O cheiro podre dos corpos se decompondo, encheu as narinas daqueles sobreviventes diante do posto de gasolina abandonado.
    Um dos policiais subiu no teto de uma viatura.
    O homem negro e forte, de movimentos ágeis e decididos, atendia por Erisson. Erisson observou com o auxílio de um binóculo, ficou em silêncio, voltou-se para os demais.
-Quantos? - questionou o cabo Élcio.
-Quase mil. - respondeu o soldado de pele cor de ébano, num tom que beirava o tom de profissionalismo de quando observavam multidões na parada gay ou na marcha pra Jesus, não havia temor em sua fala, só havia a constatação de que estavam diante de um perigo enorme e que tinha de fazer algo o quanto antes.
-Acho que nossa parceria acaba aqui. - falou Élcio voltando-se pra Bia.
    A mulher olhou de volta pro policial, calculando as possibilidades que suas decisões lhe ofereciam naquele momento.
    Ela fez silêncio, e com o olhar mandou seus homens voltarem aos veículos, sem questionamentos aqueles homens do crime correram na direção dos caminhões, como meninos obedientes ao ouvirem a voz de uma mãe severa.
    Mais que isso, aquele grupo de páreas seguia aquela liderança, pois sabiam que ela os fortalecia, como tinha feito até agora.
-É melhor a gente não se trombar de novo verme.
    Élcio olhou a mulher com aquela frieza e calma que eram sua marca registrada.
-A recíproca é verdadeira.
    Os policiais entraram nas viaturas e seguiram na direção de Santana de Parnaíba.
    O mesmo homem que havia encontrado a mochila cor de rosa sentou-se ao lado de Bia na cabine do caminhão que segue na frente.
-E aí Bia? Vamo deixa os verme saí assim?
-Relaxa, a caçada fica mais interessante quando a presa é pega de surpresa. - respondeu a mulher que deu partida no caminhão e saiu com um sorriso diabólico nos lábios, sorriso que assustou até mesmo o seu comparsa.

Continua...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

domingo, 6 de setembro de 2015


Pé de cabra - Capítulo X - Refúgio

    A Harley Davidson Night Rod Special subiu na frente.
    Eles passaram por uma enorme cruz de concreto que ficava a esquerda do caminho, estavam no morro do Capuava em Pirapóra do Bom Jesus, por onde a pequena caravana de sobreviventes transitava, a direita havia um caminho que se estreitava ao redor de uma outra elevação, eles seguiram por um morro numa estrada que ficava cada vez mais íngreme, minutos depois chegaram ao topo da montanha. Numa região plana e pavimentada, onde a certa distância podiam ver uma casa de alvenaria branca, onde se reuniam anteriormente os praticantes de voo livre que a usavam como base.
    A ruiva parou com a Harley, a alguns metros da casa, ela desceu e sinalizou pra que estacionassem.
    Os veículos estacionaram lado a lado, e os garotos desceram um tanto apreensivos, observando atentamente tudo ao redor.
    Estava escuro.
    Aqueles que tinham lanternas as acenderam.
    Mayara aproximou-se da Pé de cabra e a abraçou, as duas garotas tinham a mesma altura, a ruiva foi receptiva e abraçou de volta carinhosamente.
-Muito obrigada! Você salvou a gente! - disse Mayara enquanto se afastava do corpo da bela ruiva, pra olha-la nos olhos. -Nem sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado. - disse a unica garota do bando em tom de gratidão.
-Relaxa, seus amigos teriam morrido por você se fosse preciso, eu só dei uns tiros nos lugares certos. - sorriu a garota de longos cabelos cacheados e dentição perfeita.
    Os garotos se aproximavam e Tony estendeu as mãos pra ruiva, que com um sorriso, estendeu a mão direita a ele que beijou-a carinhosamente.
-Que Deus a abençoe e a seus tiros certeiros, se não fosse por eles, nós estaríamos perdidos. falou o garoto de óculos em tom de respeito, quase beirando o carinho e devoção por algo sagrado.
-Orra, nem me fale! - falou Lock se aproximando. Descobrir que o Pé de cabra existe e ser salvo por ele... quer dizer por ela não tem preço.
-Pé de cabra? - questionou a ruiva. - Como assim Pé de cabra?
-Nós passamos por um grupo de sobreviventes lá de Barueri, e eles contaram como foram salvos por uma horda de zumbis, por alguém que usava um pé de cabra vermelho. - explicou Tony.
    A ruiva sorriu enigmática.
-E só por isso acham que eu sou o tal Pé de cabra?
    O bando ficou em silêncio, olhando a ruiva que os olhava de volta.
-Até que agora, com você falando desse jeito, fica bem menos óbvio pra mim. - respondeu Mayara.
-Então você não é a Pé de cabra? - disparou Lock.
    A ruiva sorriu.
-Meu nome é Maisa até onde sei, essa alcunha admito que não conhecia. - sorriu a ruiva.
-Então foi você mesma que salvou o grupo de Barueri? - inquiriu Daniel, curioso com aquilo tudo.
    A ruiva retirou a mochila que estava em sua motocicleta, olhou os garotos que ainda esperavam por um esclarecimento.
-Vamos entrar logo criançada. Aqui fora tá frio e pelo jeito logo começa a chover de novo.
    Lock fez menção de insistir no assunto, porém Tony o segurou pelo braço e meneou a cabeça negativamente.
-Deixa quieto mano, se ela quiser falar ela fala.
    Maisa ouviu o comentário de Tony, e caminhou na direção da casinha branca.
-Vamos entrar, a noite foi bem agitada pra vocês, vou preparar algo pra comerem e acomoda-los.
-Putz, não precisa falar duas vezes! - disse Lock pegando as bolsas enquanto os outros faziam o mesmo.
-Bora então. - concordou Tony. -Daniel, Lucas e Mayara tragam as mochilas e tudo o que acharem dentro das viaturas, Lock e eu faremos o mesmo. - completou Tony instruindo os demais.
-Pódexa mamãe! - retrucou Daniel arrancando sorrisos dos amigos.
    Maisa sorriu observando a interação entre eles.
-Antigamente isso aqui era usado por quem fazia parapente né? - questionou Tony voltando-se pra ruiva.
-Era sim, a altura e a distância da cidade ajudam muito pra esse ser um bom lugar pra ficar, mas existe um outro detalhe que faz toda a diferença. - respondeu ela.
    Os garotos olharam enquanto a viam distanciar-se.
-Vocês vão descobrir isso agora mesmo. - falou Maisa, aproximando-se da entrada do local.
    Era uma porta de ferro, com um portão de ferro cobrindo-a, havia uma corrente presa por um cadeado grande, daqueles que possuem combinação pra serem abertos.
    Maisa abriu o cadeado e em seguida o portão e a porta e fez sinal pra que eles entrassem. Mayara passou primeiro, seguida de perto pelos garotos que traziam consigo as mochilas e as armas que haviam conseguido com seus finados agressores.
   Com as luzes das lanternas perceberam que aquele cômodo estava completamente vazio.
    Enquanto Maisa trancava a porta e o portão eles observavam ao redor, estranhando o fato de não haver nada por ali.
    Após trancar tudo, Maisa passou por eles e iluminando com a lanterna foi pra um outro canto do cômodo, lá havia um alçapão que ela puxou pra cima, segurando sozinha, com uma das mãos, uma corrente de pesados elos prateados, com o esforço da garota, a pequena porta em forma de círculo se abriu e deixou a vista uma escada vertical dentro de um estreito túnel circular por onde só passaria uma pessoa por vez.
-Pessoal todos devem passar por aqui, depois de passarem um sensor vai travar essa porta automaticamente e ela só será aberta por dentro. - explicou Maisa enquanto enquanto apontava a lanterna na direção do buraco, que podia muito bem passar por toca do coelho que os levaria ao país das maravilhas.
-Nossa uma passagem secreta! - gritou Lock falhando em sua missão de conter o entusiasmo que tomava conta dele naquele momento.
-Agora a porra ficô séria! - completou Daniel arrancando sorrisos dos demais.
-Pois é, essa é uma das muitas coisas secretas que vocês vão descobrir hoje.
    Ao dizer isso, a ruiva desceu primeiro com muita agilidade, a garota não pisava os degraus, ao invés disso deslizou segurando nas laterais da escada, ela chegou rapidamente ao fim do percurso, de onde acendeu uma luz que iluminou o túnel da escada. Todos desceram empolgados com aquele cenário inesperado que se descortinava diante deles.
    A escada terminava num pequeno cômodo que tinha uma pesada porta de metal, a ruiva a empurrou e logo estavam diante de um longo corredor iluminado por lampadas.
-Achei que nunca mais veria uma lampada acesa. - disse Tony, não direcionando o comentário a alguém específico, mas feliz por ter certo controle sobre a escuridão novamente.
-Aqui vocês terão muitas coisas que lá fora ja são raridade, mais adiante tem uns quartos com camas. - disse Maisa apontando a frente e dando passagem aos garotos que se adiantaram e foram aproveitar o conforto que há muito deixaram de ter, ficando as garotas uma ao lado da outra.
-Cansada? - perguntou a ruiva.
-Muito, nem acredito que vou dormir numa cama de verdade hoje. Já fazia tempo que eu não tinha essa sensação.
-Que sensação? - que sensação falou Maisa segurando-a pelo braço e conduzindo-a de braços dados até uma pequena cozinha que ficava ao lado do quarto onde os garotos estavam.
    Era um lugar aconchegante com uma mesa grande, ao redor da mesa seis cadeiras, uma geladeira antiga vermelha de contornos arredondados, um fogão de quatro bocas e um armário branco em volta da geladeira.
-Senta aí. - disse Maisa apontando pra uma cadeira. -Vou cozinhar pra vocês, hoje vocês vão experimentar a especialidade da casa. - disse ela abrindo o armario e retirando um pacote de Canjão. - Essa aqui é pra quando estamos com pouco tempo. - falou ela sorrindo enquanto enchia uma panela e colocava sobre o fogão.
    Mayara olhava aquilo tudo maravilhada, o som da água caindo da torneira, das panelas sendo escolhidas no armário, do fósforo riscado e do fogão aceso, imagens e sons que ela sequer podia imaginar que tornaria a presenciar, coisas que outrora eram corriqueiras, naquele momento e contexto pareciam tesouros de inestimável valor, relíquias de outros tempos, quase perdidas na memória.
    A garota de cabelo channel suspirou.
-Esse canjão vai cair muito bem, passamos tanto frio nesses últimos dias.
-Eu imagino, aqui tem chuveiros com água quente, avisa os meninos, vocês podem tomar banho, tem umas roupas nos quartos, roupas que eles também podem usar, quando voltarem a comida estará pronta.
-Nem sei como agradecer. - disse Mayara um tanto emocionada com aquela reviravolta em suas vidas.
    A ruiva voltou-se pra ela, enquanto mexia o conteúdo do caldeirão com uma colher de pau.
-Relaxa, é muito ruim passar por tudo isso sem ter com quem conversar.
 
    Após o banho todos se reuniram na cozinha, atraídos pelo cheiro convidativo do Canjão e de pães que acabavam de sair do forno
    Todos estavam com agasalhos de moletom pretos, que haviam retirado dos guarda roupas nos quartos.
-Eu já tinha até esquecido a sensação de usar roupas limpas. - falou Tony, feliz por ter trocado as roupas, como há muito não fazia.
-Tava precisando mano, eu já tava todo assado. - falou Lucas sorrindo.
-Sem palavras dona Pé de cabra. - falou Lock, sentando a mesa e arrancando um sorriso da ruiva de cabelos cacheados.
    Um caldeirão cheio de canja foi posto sobre a mesa pela ruiva de ombros fortes e femininos.
    O cheiro agradável e convidativo aguçou os sentidos dos garotos, que por muito tempo tiveram de se contentar com o que encontravam pelo caminho e nem sempre o destino havia sido generoso como naquele momento.
    A ruiva sentou-se a cabeceira da mesa e com um sorriso nos lábios olhou-os comerem.
-Aproveitem crianças, hoje é por minha conta.

Continua...

domingo, 30 de agosto de 2015





Capítulo IX - Um tiro nas costas e... um tiro na cabeça.

    Gritos.
    Um tiro.
    Corpos pútridos estavam sem rumo, os sons repentinos lhes apontam um caminho a seguir.
    Não há estratégia.
    Não há plano.
    Apenas o desejo animalesco de se alimentar, apenas o anseio infindável por carne humana.
    As criaturas se aglomeram.
    Uma horda se junta.
    Alguns atravessando a rodovia Castelo Branco, outros saindo dos galpões abandonados da avenida Fernando Cerqueira César Coimbra.
    Eles caminham a passos cambaleantes, unidos por um objetivo instintivo, as criaturas seguem em direção a um terreno baldio.

    Dentro de um terreno baldio.
    Há um barraco com uma das paredes laterais destruída.
    O corpo de um velho enorme com a face aberta por uma faca e uma atitude violenta.
    O corpo de um filho deste mesmo velho com um profundo corte aberto na garganta, corte feito pela mesma faca que abriu a cara do velho, corte esse que fez o filho do velho sangrar até a morte.
    O segundo filho está no chão beirando a inconsciência, uma flecha perfurou sua coxa esquerda, outra transpassou o seu ombro direito e uma facada perfurou seu olho direito.
    Um arqueiro de cabelos cacheados está caído com o rosto no chão, um tiro o atingiu pelas costas.
    Do cano do revólver uma fina linha de fumaça serpenteia em direção ao céu. O braço forte, porém trêmulo ainda está erguido. A visão do pai e dos irmãos caídos invade a mente do atirador.
    Ele sabia que algo assim ainda ia acontecer, nunca concordou com o "vício" da família, mas de alguma forma aquelas mortes seriam o fim daquele mal, que muitas vezes ele mesmo ajudou a causar, uma sensação estranhíssima de alívio o tomou.
    Passou a mão na testa, enxugou o suor, caminhou até o irmão caido com a flecha fincada no ombro.
-Que disgraça fizemo de nossa vida Manuel?! Olha o que chegô pra nóis! - falou em meio as lágrimas dirigindo-se ao irmão caído.
    O gigante Manuel, sofria com as dores provenientes do ataque do arqueiro.
-Acaba logo com ele... - falou o gigante ferido num sussurro.
-Ja dei um tiro no vagabundo, ele tá caído.
-Acaba com ele ..., atira na cabeça.
-Pára Manuel. Eu vo cuida docê, dexa o fi di rapariga pra lá, dei um tiro no lombo dele.
    O atirador baixou-se e ajudou Manuel a se sentar, o homem ferido gemeu alto, as dores dificultavam sua concentração.
-Não quero sua ajuda!- resmungou Manuel.
-Calma mano.
-Atira logo na cabeça dele! - falou o homem ferido, juntando forças pra fazer as palavras deslizarem pra fora da boca.
-Me deixa aqui e atira logo na cabeça dele! - gritou Manuel juntando raiva a sua fala.
-Ta bom cacete! - gritou o atirador largando no chão o irmão ferido, fazendo Manuel urrar de dor ao chocar as costas contra o solo de terra.
    Manuel fechou o olho bom, sentindo a dor lancinante que o acometia no buraco deixado pela faca do arqueiro, tentou relaxar enquanto descansava a cabeça.
    O som do tiro invadiu seus ouvidos, a sensação de alívio tomou conta dele.
-Agora me ajuda a levantar. - resmungou Manuel.
    Não houve nenhuma resposta do irmão.
-Ô seu fresco me ajuda! - grunhiu Manuel, esforçando-se pra se erguer do chão e olhar em volta, deparando-se com o irmão caído, ao seu lado uma pequena garota estava parada.
-Quenguinha disgracenta!
    Nesse ínterim outra movimentação próxima fez Manuel estremecer.
    Gemidos das criaturas que se aglomeravam do outro lado do muro invadiram o ambiente de um terror desesperadoramente palpável. O cheiro fétido de seus corpos em decomposição invadiu o terreno baldio.
    Alguns dos mortos vivos forçavam seus corpos contra o portão de ferro que dava sinais de que não aguentaria muito tempo.
-Quenguinha dos inferno, vem aqui pra eu te da o que merece! - gritou Manuel
-Então você ainda não aprendeu?
    A voz masculina adentrou os ouvidos de Manuel, o desespero o atingiu junto com a voz, que ele mesmo havia ouvido pouco, mas já sabia que devia temer.
    Diante de seus olhos incrédulos o arqueiro se ergueu.
-Esse fi di rapariga num morre! - gritou Manuel, desesperado pela constatação de que o tiro que ouvira, tinha sido disparado pela garotinha contra o irmão, que jazia inerte a poucos metros dele.
-Eu morro sim gordão, mas o bósta do seu irmão atirou na altura do colete, isso vai doer por um tempo, mas não foi o bastante pra me apagar. - falou o arqueiro de pé diante de Manuel, abrindo a jaqueta que usava pra mostrar o colete que segurou o impacto da bala.
-Disgracento! - gritou o gordo caído.
Rapidamente o arqueiro voltou-se pra criança e pegou a mochila de suas costas.
-Então você sabe atirar?
-Minha mãe me ensinou.
-Sua mãe é uma mulher esperta.
    Enquanto conversavam os zumbis forçavam ainda mais o portão.
    O arqueiro recolheu as flechas e as colocou na aljava, que em seguida pôs nas costas, posicionando a mochila em seguida, pegou o arco e o prendeu nas amarras da mochila.
    Os olhos atentos, do homem de óculos escuros modelo aviador, passearam pelo terreno baldio, enquanto ele analisava a situação, na parte debaixo do local havia um muro que dava acesso a uma outra rua.
-Eles tão chegando! - gritou a menina apontando pro portão.
-Vem criança, vou te levar daqui. - falou o arqueiro em tom confortante tomando a pequena nos braços.
As criaturas derrubaram o portão e entraram aos montes.
    Manuel estremeceu de dor, quando ao passar por ele o arqueiro puxou violentamente a flecha fincada em seu ombro.
-Relaxa gordo, isso vai ser mais útil pra mim do que pra você.
-Fi di rapariga disgracento! - gritou Manuel, amaldiçoando o arqueiro que correu pra longe com a criança nos braços.
    Enquanto o homem colocava a criança sobre o muro, auxiliando a pequena pra atravessarem juntos aquele obstáculo, os zumbis enchiam o lugar. Eles devoravam os corpos espalhados pelo chão.
    Manuel girou o imenso corpo e rastejou com dificuldade na direção oposta da horda que estraçalhava a família de psicopatas da qual fazia parte, as lagrimas encheram seu olho bom e turvaram ainda mais a sua visão, sua movimentação chamou a atenção de três das criaturas que vieram em sua direção, uma mulher de vestido sujo e rasgado, com dentes podres e cabelos desgrenhados, ela se jogou sobre ele e o mordeu na nuca, arrancando um enorme pedaço de carne, ele gritou de dor, e empurrou a zumbi pra longe com o braço forte.
-Sai daqui cadela dos inferno!
    Os outros dois gemeram de forma animalesca e se jogaram juntos sobre ele, eram dois adolescentes de bermuda e camiseta regata, um deles mordeu o braço de Manuel arrancando mais carne e músculos, o suficiente pra deixar um osso exposto.
    A luta do enorme homem pra libertar-se do ataque, acabou por chamar ainda mais a atenção dos demais mortos vivos que começaram a seguir em sua direção, as criaturas rasgavam suas carnes, enquanto ele gritava de dor a plenos pulmões.
    Uma flecha transpassou o crânio de Manuel, perfurando de uma têmpora a outra, calando-o pra sempre.
-Disponha gordo, ninguém mais pode dizer que não sou piedoso. - falou o arqueiro de cima do muro localizado na parte debaixo do terreno, com o arco na mão, após disparar a flecha de misericórdia ele pula do muro em direção a rua, deixando pra trás a família de predadores sexuais que era feita em pedaços pelas criaturas.

Continua...

sábado, 22 de agosto de 2015




Pé de cabra - Capítulo VIII - O conteúdo dos tambores 
 

   Ainda cheio de adrenalina ele não soube o que dizer. Olhou o chão e viu que o revólver do velho permanecia ali. Foi até ele e o apanhou, conferiu o tambor e viu que ainda restavam cinco balas.
    Respirou fundo.
    O terreno tinha uma bela vista para o centro da cidade de Carapicuíba.
    O arqueiro sentiu o vento tocar o seu rosto, enquanto seus cabelos balançavam ao sabor dos movimentos do ar ao seu redor, ele observava em silêncio o horizonte. Olhou a pequenina que estava abraçada a uma mochila, ela olhou de volta com temor no olhar.
-Pode ter certeza que o que fiz a ele, foi pra que ele não fizesse mal a você. - disse ele guardando a arma dentro da mochila.
-Eu sei. - respondeu a pequena num sussurro
    O arqueiro olhou a garota e percebeu que seus pés estavam descalços, ela vestia short e camiseta, ele entendeu que os tremores da criança não correspondiam somente ao stress dos últimos momentos, mas também ao fato da temperatura estar caindo.  Olhou o céu e viu que nuvens escuras carregadas presenteavam aquele dia de inverno com um toque a mais de terror.
    Sob o olhar curioso da pequena, ele abriu a mochila, e retirou uma barra de chocolate, que ofereceu a ela estendendo a mão, diante daquele gesto o olhar da pequena se acendeu, como se depois do trauma suas funções biológicas se religassem e ela descobrisse que a fome ainda fazia parte de suas necessidades.
-Pega, você não ta com fome?
    Ela fez que sim com a cabeça, mas olhou o corpo do velho no chão, e em seu rosto desenhou- se uma expressão tensa indicando que estava incomodada por estar diante daquilo.
    O arqueiro percebeu a tensão da garota e caminhou em sua direção, tocou seu ombro com a mão e entregou a ela a barra de chocolate.
-Vem comigo, vai comer ali atras do barraco, enquanto isso vou dar uma olhada lá dentro e ver se encontro um calçado pra você.
-Meu chinelo das Monster High tá la dentro. - disse ela caminhando ao lado dele.
-Pode deixar que eu pego pra você.
Ele a conduziu até o lado do barraco de onde já não mais podiam ver o corpo do velho. Ela sentou no chão encostando na parede de madeira da pequena moradia improvisada, ele abaixou até ficar com o rosto na altura do dela.
-Aqui tem água. -disse ele retirando da mochila uma garrafa e entregando a ela.
-Obrigada. - respondeu ela num fio de voz.
    Ele olhou a pequena tomando água, sentiu por ela profunda simpatia desde o primeiro momento em que a viu, ela tinha um jeito de bichinho abandonado que mexia com algo dentro dele.
-Vou deixar a mochila com você, tem umas bolachas e uns salgadinhos aqui, coma tudo o que quiser, eu já volto.
    Ela aquiesceu com a cabeça e agradeceu com a voz um pouco mais firme.
-Obrigada.
    Levantando-se, ele retirou do coldre a arma que havia conseguido com o zumbi vestido de segurança, prendeu o arco nas costas junto com a aljava que continha as cinco flechas restantes, posicionou a faca no cinto e em seguida caminhou na direção do barraco. Enquanto caminhava olhou o terreno no qual estavam, ele dava acesso a rua debaixo, era pouco maior que um campo de futebol de salão,  mais próximo do muro na parte inferior do terreno haviam alguns entulhos e mato alto.
    Passou pela porta aberta do barraco, e olhou em volta, havia uma cama de casal, com cobertores e lençóis que fediam a urina, o barraco exalava um cheiro podre de comida estragada e haviam utensílios domésticos espalhados pelo chão.
    O arqueiro retirou do bolso uma bandana que usou pra proteger o nariz, amarrando-a no rosto como faziam os bandidos nos filmes de velho oeste.
    Percebeu que ao lado da cama estava um dos pés do chinelo, continuou a procura pelo outro sem sucesso, até notar que depois da cama de casal havia um lençol dividindo o quarto. Com a pistola na mão foi cuidadosamente na direção daquela nova parte do barraco.
    O lençol estava preso a um cordão por alguns prendedores. Erguendo o lençol escuro ele adentrou aquele novo ambiente, deparou-se com um pequeno cômodo onde estavam quatro grandes tambores tampados, mais adiante havia uma nova divisória feita com uma colcha de retalhos dessa vez.
    Caminhou na direção dos tambores enquanto era invadido por uma sensação ruim. O cheiro acre daquele lugar diferia do restante do barraco. Um misto de fezes humanas e carne em avançado estado de decomposição.
    Olhou os tambores como se eles emitissem poderoso magnetismo sobre o seu ser. Respirou fundo, guardou a arma no coldre e pôs as duas mãos sobre a tampa do primeiro, ao forçar pra retira-la conseguiu abrir um pequeno vão, de onde o pior cheiro que já havia sentido na vida escapou.
    Cheiro de morte.
    Retirou a tampa e a jogou no chão, seus pelos se eriçaram e ele deu um passo pra trás, tateou o rosto pra se certificar de que o lenço estava bem preso. Respirou fundo pela boca, juntou forças e foi até o segundo, a tampa cedeu mais facilmente, o cheiro inundou o ambiente, seus olhos passearam pelo conteúdo do recipiente.
"Quatro no primeiro, mais quatro no segundo" - pensou ele.
    Caminhou até o terceiro mais focado que antes, retirou a tampa, parou por um instante como se estivesse tentando represar seus sentimentos.
"Mais quatro no terceiro tambor".
    A imagem do velho invadiu seus pensamentos. O nojo e o mal estar físico deram lugar a outro sentimento. A sensação de que havia feito algo bom, de que a violência bem direcionada acabava de livrar, aquele mundo ja muito despedaçado, de um parasita que se aproveitava de organismos debilitados.
    Foi até o quarto tambor apenas pra se certificar, ao abrir a tampa percebeu que havia uma diferença com relação a outros.
    Havia lugar pra mais uma.
    Uma lagrima rolou.
    "Apenas três..." - pensou o arqueiro.
    Ele secou aquela lágrima, ao olhar todos os tambores, como se visse neles a comprovação de que a sociedade como um dia a conheceu jamais voltaria ao que era. Em cada um dos primeiros três tambores, haviam quatro garotinhas, pareciam ter a mesma faixa etária daquela que comia a barra de chocolate do lado de fora daquele barraco.
    Os corpos sem vida traziam sinais de violência. Uma sensação de desespero tomou conta dele, quando imaginou como teriam sido os últimos momentos daquelas crianças na companhia do velho. O arqueiro libertou-se do torpor que o tomara diante de tais descobertas e correu na direção da outra divisória, puxou bruscamente a colcha de retalhos e viu que haviam três camas de solteiro uma ao lado da outra, haviam roupas masculinas espalhadas pelo pequeno quarto improvisado, e roupas de cama que pareciam ter sido usadas recentemente.
-Ele não estava sozinho! - exclamou o arqueiro, sentindo o coração disparar ao ouvir os passos do lado de fora do barraco. Lá de fora uma voz masculina exclamou carregada de ódio.
-Porra painho! Que fizero co sinhô?!
    O arqueiro caminhou cautelosamente  pra fora do barraco, ao passar pela porta correu na direção em que estava a criança, pra sua surpresa e desespero, nem ela e nem a mochila estavam onde as havia deixado.
    Habilmente ele se esgueirou, rente as paredes do barraco pra se inteirar do que acontecia.
    Um homem enorme estava debruçado sobre o corpo do velho, o homem tinha as feições do ancião pedófilo e era tão grande quanto ele, logo ao seu lado havia um segundo homem, pondo as mãos na cabeça em sinal de desespero.
-Quem feiz isso co ele? - esbravejou o homem que estava abaixado.
-Com certeza não foi um dos bicho aí de fora! - respondeu o homem que estava de pé.
-Se eu pegá o corno que feiz isso eu vô fazê co ele pior do que painho fazia cas quenguinha que nóis trazia pra cá! - gritou o homem mais próximo do corpo.
    O arqueiro observava atentamente toda aquela cena, enquanto sentia o sangue ferver nas veias diante de todas aquelas descobertas macabras.
-E a quenguinha de hoje cedo?! Cadê ela?! - gritou o homem se erguendo, o filho do pedófilo tinha no mínimo dois metros de altura, além de ser um homem quase tão gordo quanto era o pai.
    Antes que ele pudesse se voltar para o outro que estava de pé, uma sombra passou rapidamente por seu campo de visão, tão rápido que ele não pode perceber um homem empunhando uma faca, tão depressa que ele só conseguiu entender o que acontecia quando aquela sombra cortou a garganta de seu irmão e o deixou cair, sufocando com o sangue que se esvaia.
    Foi tudo tão inesperado que o filho do pedófilo, mal teve tempo de perceber o homem de óculos escuros, e bandana cobrindo-lhe metade do rosto, guardar a faca no cinto e posicionar o arco que trazia preso ao corpo, tirar da aljava uma flecha, arma-la no arco e apontar pra ele.
-Você é filho daquele safado? - perguntou o arqueiro puxando a corda até o final e disparando uma flecha que acertou o homem na coxa esquerda.
    O enorme homem urrou de dor, mas permaneceu de pé.
-Foi tu que mato painho?! Fi duma disgraça!
    Contrariando a dor lancinante que o invadia o homem arrancou a flecha da coxa e correu na direção do arqueiro.
    Ao perceber que não dava tempo de preparar outra flecha o arqueiro jogou o arco no chão a tempo de ser agarrado pelo oponente que lançou-se com ele contra o barraco, o impacto foi tão violento que as paredes de madeira mais próximas a eles se quebraram e os dois foram parar dentro do barraco, mais precisamente no quarto onde haviam os tambores.
    A violência do ataque jogou o arqueiro de costas contra um dos tambores, que caiu em seguida, lançando pra fora os corpos das meninas mortas, o rosto de uma delas parou a poucos centímetros do arqueiro que se recuperava do ataque.
    O filho do velho ergueu-se rapidamente e apanhou uma enxada que estava ao lado de um dos tambores, com violência esmagadora ele golpeou o arqueiro, que no ultimo instante girou o corpo e desviou do ataque que acabou por atingir o corpo da criança morta, espatifando a pequena cabeça.
    O homem de cabelos cacheados sacou a faca e desviou de mais um dos golpes de enxada, o gordo balança a ferramenta vigorosamente, tentando acertar aquele que matara seu pai, porém o arqueiro era muito ágil e desviava de todos os golpes.
-Fica parado fi di rapariga! - gritou o gordo erguendo a enxada sobre a cabeça e golpeando com violência na direção do oponente, que deu um passo pra trás momentos antes da ferramenta fincar-se no chão a menos de um passo dele, o homem de cabelos cacheados aproveitou aquele momento, pra pisar a ferramenta impedindo que o enorme homem  pudesse ergue-la novamente. Num rápido movimento o arqueiro fincou a faca no olho direito do gordo, que gritou desesperadamente, o arqueiro puxou a faca e empurrou o peito do gordo com a sola do pé, a faca saiu do orifício aberto enquanto o corpo enorme chocou-se contra o chão.
    O gigante gritou, xingou e ameaçou.
    O arqueiro fez silêncio, caminhou até o arco e o tirou do chão.
-Sabe, o seu pai também esperneou igual cadela um pouco antes de eu abrir a cara dele. Você gosta?
    O gordo gritou de ódio:
-Gosto do que seu bosta?!
-Do grito das crianças, do terror nos olhos delas, me responde, você gosta? - falou o arqueiro tirando do chão uma flecha e armando no arco.
-Vá se fudê seu arrombado! - esbravejou o gordo quase desmaiando com as dores que o acometiam.
-Eu gosto de gritos.- falou calmamente o arqueiro, enquanto puxava a corda do arco até o limite.
-É claro que não dos gritos de crianças. - dizendo isso disparou a flecha que transpassou o ombro do filho do pedófilo, arrancando dele um grito ensurdecedor.
-Mas gritos como estes seus... - o arqueiro suspirou como se saboreasse o seu prato preferido. -São como musica pros meus ouvidos.
    O homem gemia de dor, e já estava sentindo dificuldade em manter-se acordado.
-Acaba logo com isso seu corno. - murmurou o gordo entredentes.
-Vocês acabavam logo com as meninas?! - gritou o arqueiro, sua voz havia se transformado num rugido colérico. - Acabavam com o maldito sofrimento que vocês mesmo causavam?! - gritou ele posicionando mais uma flecha no arco e apontando pro gordo.
-Eu não vou acabar com seu...
    Um estrondo encheu o ambiente.
    Um tiro!
    O arqueiro cai no chão com o impacto de um tiro nas costas.
Continua...