domingo, 30 de agosto de 2015





Capítulo IX - Um tiro nas costas e... um tiro na cabeça.

    Gritos.
    Um tiro.
    Corpos pútridos estavam sem rumo, os sons repentinos lhes apontam um caminho a seguir.
    Não há estratégia.
    Não há plano.
    Apenas o desejo animalesco de se alimentar, apenas o anseio infindável por carne humana.
    As criaturas se aglomeram.
    Uma horda se junta.
    Alguns atravessando a rodovia Castelo Branco, outros saindo dos galpões abandonados da avenida Fernando Cerqueira César Coimbra.
    Eles caminham a passos cambaleantes, unidos por um objetivo instintivo, as criaturas seguem em direção a um terreno baldio.

    Dentro de um terreno baldio.
    Há um barraco com uma das paredes laterais destruída.
    O corpo de um velho enorme com a face aberta por uma faca e uma atitude violenta.
    O corpo de um filho deste mesmo velho com um profundo corte aberto na garganta, corte feito pela mesma faca que abriu a cara do velho, corte esse que fez o filho do velho sangrar até a morte.
    O segundo filho está no chão beirando a inconsciência, uma flecha perfurou sua coxa esquerda, outra transpassou o seu ombro direito e uma facada perfurou seu olho direito.
    Um arqueiro de cabelos cacheados está caído com o rosto no chão, um tiro o atingiu pelas costas.
    Do cano do revólver uma fina linha de fumaça serpenteia em direção ao céu. O braço forte, porém trêmulo ainda está erguido. A visão do pai e dos irmãos caídos invade a mente do atirador.
    Ele sabia que algo assim ainda ia acontecer, nunca concordou com o "vício" da família, mas de alguma forma aquelas mortes seriam o fim daquele mal, que muitas vezes ele mesmo ajudou a causar, uma sensação estranhíssima de alívio o tomou.
    Passou a mão na testa, enxugou o suor, caminhou até o irmão caido com a flecha fincada no ombro.
-Que disgraça fizemo de nossa vida Manuel?! Olha o que chegô pra nóis! - falou em meio as lágrimas dirigindo-se ao irmão caído.
    O gigante Manuel, sofria com as dores provenientes do ataque do arqueiro.
-Acaba logo com ele... - falou o gigante ferido num sussurro.
-Ja dei um tiro no vagabundo, ele tá caído.
-Acaba com ele ..., atira na cabeça.
-Pára Manuel. Eu vo cuida docê, dexa o fi di rapariga pra lá, dei um tiro no lombo dele.
    O atirador baixou-se e ajudou Manuel a se sentar, o homem ferido gemeu alto, as dores dificultavam sua concentração.
-Não quero sua ajuda!- resmungou Manuel.
-Calma mano.
-Atira logo na cabeça dele! - falou o homem ferido, juntando forças pra fazer as palavras deslizarem pra fora da boca.
-Me deixa aqui e atira logo na cabeça dele! - gritou Manuel juntando raiva a sua fala.
-Ta bom cacete! - gritou o atirador largando no chão o irmão ferido, fazendo Manuel urrar de dor ao chocar as costas contra o solo de terra.
    Manuel fechou o olho bom, sentindo a dor lancinante que o acometia no buraco deixado pela faca do arqueiro, tentou relaxar enquanto descansava a cabeça.
    O som do tiro invadiu seus ouvidos, a sensação de alívio tomou conta dele.
-Agora me ajuda a levantar. - resmungou Manuel.
    Não houve nenhuma resposta do irmão.
-Ô seu fresco me ajuda! - grunhiu Manuel, esforçando-se pra se erguer do chão e olhar em volta, deparando-se com o irmão caído, ao seu lado uma pequena garota estava parada.
-Quenguinha disgracenta!
    Nesse ínterim outra movimentação próxima fez Manuel estremecer.
    Gemidos das criaturas que se aglomeravam do outro lado do muro invadiram o ambiente de um terror desesperadoramente palpável. O cheiro fétido de seus corpos em decomposição invadiu o terreno baldio.
    Alguns dos mortos vivos forçavam seus corpos contra o portão de ferro que dava sinais de que não aguentaria muito tempo.
-Quenguinha dos inferno, vem aqui pra eu te da o que merece! - gritou Manuel
-Então você ainda não aprendeu?
    A voz masculina adentrou os ouvidos de Manuel, o desespero o atingiu junto com a voz, que ele mesmo havia ouvido pouco, mas já sabia que devia temer.
    Diante de seus olhos incrédulos o arqueiro se ergueu.
-Esse fi di rapariga num morre! - gritou Manuel, desesperado pela constatação de que o tiro que ouvira, tinha sido disparado pela garotinha contra o irmão, que jazia inerte a poucos metros dele.
-Eu morro sim gordão, mas o bósta do seu irmão atirou na altura do colete, isso vai doer por um tempo, mas não foi o bastante pra me apagar. - falou o arqueiro de pé diante de Manuel, abrindo a jaqueta que usava pra mostrar o colete que segurou o impacto da bala.
-Disgracento! - gritou o gordo caído.
Rapidamente o arqueiro voltou-se pra criança e pegou a mochila de suas costas.
-Então você sabe atirar?
-Minha mãe me ensinou.
-Sua mãe é uma mulher esperta.
    Enquanto conversavam os zumbis forçavam ainda mais o portão.
    O arqueiro recolheu as flechas e as colocou na aljava, que em seguida pôs nas costas, posicionando a mochila em seguida, pegou o arco e o prendeu nas amarras da mochila.
    Os olhos atentos, do homem de óculos escuros modelo aviador, passearam pelo terreno baldio, enquanto ele analisava a situação, na parte debaixo do local havia um muro que dava acesso a uma outra rua.
-Eles tão chegando! - gritou a menina apontando pro portão.
-Vem criança, vou te levar daqui. - falou o arqueiro em tom confortante tomando a pequena nos braços.
As criaturas derrubaram o portão e entraram aos montes.
    Manuel estremeceu de dor, quando ao passar por ele o arqueiro puxou violentamente a flecha fincada em seu ombro.
-Relaxa gordo, isso vai ser mais útil pra mim do que pra você.
-Fi di rapariga disgracento! - gritou Manuel, amaldiçoando o arqueiro que correu pra longe com a criança nos braços.
    Enquanto o homem colocava a criança sobre o muro, auxiliando a pequena pra atravessarem juntos aquele obstáculo, os zumbis enchiam o lugar. Eles devoravam os corpos espalhados pelo chão.
    Manuel girou o imenso corpo e rastejou com dificuldade na direção oposta da horda que estraçalhava a família de psicopatas da qual fazia parte, as lagrimas encheram seu olho bom e turvaram ainda mais a sua visão, sua movimentação chamou a atenção de três das criaturas que vieram em sua direção, uma mulher de vestido sujo e rasgado, com dentes podres e cabelos desgrenhados, ela se jogou sobre ele e o mordeu na nuca, arrancando um enorme pedaço de carne, ele gritou de dor, e empurrou a zumbi pra longe com o braço forte.
-Sai daqui cadela dos inferno!
    Os outros dois gemeram de forma animalesca e se jogaram juntos sobre ele, eram dois adolescentes de bermuda e camiseta regata, um deles mordeu o braço de Manuel arrancando mais carne e músculos, o suficiente pra deixar um osso exposto.
    A luta do enorme homem pra libertar-se do ataque, acabou por chamar ainda mais a atenção dos demais mortos vivos que começaram a seguir em sua direção, as criaturas rasgavam suas carnes, enquanto ele gritava de dor a plenos pulmões.
    Uma flecha transpassou o crânio de Manuel, perfurando de uma têmpora a outra, calando-o pra sempre.
-Disponha gordo, ninguém mais pode dizer que não sou piedoso. - falou o arqueiro de cima do muro localizado na parte debaixo do terreno, com o arco na mão, após disparar a flecha de misericórdia ele pula do muro em direção a rua, deixando pra trás a família de predadores sexuais que era feita em pedaços pelas criaturas.

Continua...

sábado, 22 de agosto de 2015




Pé de cabra - Capítulo VIII - O conteúdo dos tambores 
 

   Ainda cheio de adrenalina ele não soube o que dizer. Olhou o chão e viu que o revólver do velho permanecia ali. Foi até ele e o apanhou, conferiu o tambor e viu que ainda restavam cinco balas.
    Respirou fundo.
    O terreno tinha uma bela vista para o centro da cidade de Carapicuíba.
    O arqueiro sentiu o vento tocar o seu rosto, enquanto seus cabelos balançavam ao sabor dos movimentos do ar ao seu redor, ele observava em silêncio o horizonte. Olhou a pequenina que estava abraçada a uma mochila, ela olhou de volta com temor no olhar.
-Pode ter certeza que o que fiz a ele, foi pra que ele não fizesse mal a você. - disse ele guardando a arma dentro da mochila.
-Eu sei. - respondeu a pequena num sussurro
    O arqueiro olhou a garota e percebeu que seus pés estavam descalços, ela vestia short e camiseta, ele entendeu que os tremores da criança não correspondiam somente ao stress dos últimos momentos, mas também ao fato da temperatura estar caindo.  Olhou o céu e viu que nuvens escuras carregadas presenteavam aquele dia de inverno com um toque a mais de terror.
    Sob o olhar curioso da pequena, ele abriu a mochila, e retirou uma barra de chocolate, que ofereceu a ela estendendo a mão, diante daquele gesto o olhar da pequena se acendeu, como se depois do trauma suas funções biológicas se religassem e ela descobrisse que a fome ainda fazia parte de suas necessidades.
-Pega, você não ta com fome?
    Ela fez que sim com a cabeça, mas olhou o corpo do velho no chão, e em seu rosto desenhou- se uma expressão tensa indicando que estava incomodada por estar diante daquilo.
    O arqueiro percebeu a tensão da garota e caminhou em sua direção, tocou seu ombro com a mão e entregou a ela a barra de chocolate.
-Vem comigo, vai comer ali atras do barraco, enquanto isso vou dar uma olhada lá dentro e ver se encontro um calçado pra você.
-Meu chinelo das Monster High tá la dentro. - disse ela caminhando ao lado dele.
-Pode deixar que eu pego pra você.
Ele a conduziu até o lado do barraco de onde já não mais podiam ver o corpo do velho. Ela sentou no chão encostando na parede de madeira da pequena moradia improvisada, ele abaixou até ficar com o rosto na altura do dela.
-Aqui tem água. -disse ele retirando da mochila uma garrafa e entregando a ela.
-Obrigada. - respondeu ela num fio de voz.
    Ele olhou a pequena tomando água, sentiu por ela profunda simpatia desde o primeiro momento em que a viu, ela tinha um jeito de bichinho abandonado que mexia com algo dentro dele.
-Vou deixar a mochila com você, tem umas bolachas e uns salgadinhos aqui, coma tudo o que quiser, eu já volto.
    Ela aquiesceu com a cabeça e agradeceu com a voz um pouco mais firme.
-Obrigada.
    Levantando-se, ele retirou do coldre a arma que havia conseguido com o zumbi vestido de segurança, prendeu o arco nas costas junto com a aljava que continha as cinco flechas restantes, posicionou a faca no cinto e em seguida caminhou na direção do barraco. Enquanto caminhava olhou o terreno no qual estavam, ele dava acesso a rua debaixo, era pouco maior que um campo de futebol de salão,  mais próximo do muro na parte inferior do terreno haviam alguns entulhos e mato alto.
    Passou pela porta aberta do barraco, e olhou em volta, havia uma cama de casal, com cobertores e lençóis que fediam a urina, o barraco exalava um cheiro podre de comida estragada e haviam utensílios domésticos espalhados pelo chão.
    O arqueiro retirou do bolso uma bandana que usou pra proteger o nariz, amarrando-a no rosto como faziam os bandidos nos filmes de velho oeste.
    Percebeu que ao lado da cama estava um dos pés do chinelo, continuou a procura pelo outro sem sucesso, até notar que depois da cama de casal havia um lençol dividindo o quarto. Com a pistola na mão foi cuidadosamente na direção daquela nova parte do barraco.
    O lençol estava preso a um cordão por alguns prendedores. Erguendo o lençol escuro ele adentrou aquele novo ambiente, deparou-se com um pequeno cômodo onde estavam quatro grandes tambores tampados, mais adiante havia uma nova divisória feita com uma colcha de retalhos dessa vez.
    Caminhou na direção dos tambores enquanto era invadido por uma sensação ruim. O cheiro acre daquele lugar diferia do restante do barraco. Um misto de fezes humanas e carne em avançado estado de decomposição.
    Olhou os tambores como se eles emitissem poderoso magnetismo sobre o seu ser. Respirou fundo, guardou a arma no coldre e pôs as duas mãos sobre a tampa do primeiro, ao forçar pra retira-la conseguiu abrir um pequeno vão, de onde o pior cheiro que já havia sentido na vida escapou.
    Cheiro de morte.
    Retirou a tampa e a jogou no chão, seus pelos se eriçaram e ele deu um passo pra trás, tateou o rosto pra se certificar de que o lenço estava bem preso. Respirou fundo pela boca, juntou forças e foi até o segundo, a tampa cedeu mais facilmente, o cheiro inundou o ambiente, seus olhos passearam pelo conteúdo do recipiente.
"Quatro no primeiro, mais quatro no segundo" - pensou ele.
    Caminhou até o terceiro mais focado que antes, retirou a tampa, parou por um instante como se estivesse tentando represar seus sentimentos.
"Mais quatro no terceiro tambor".
    A imagem do velho invadiu seus pensamentos. O nojo e o mal estar físico deram lugar a outro sentimento. A sensação de que havia feito algo bom, de que a violência bem direcionada acabava de livrar, aquele mundo ja muito despedaçado, de um parasita que se aproveitava de organismos debilitados.
    Foi até o quarto tambor apenas pra se certificar, ao abrir a tampa percebeu que havia uma diferença com relação a outros.
    Havia lugar pra mais uma.
    Uma lagrima rolou.
    "Apenas três..." - pensou o arqueiro.
    Ele secou aquela lágrima, ao olhar todos os tambores, como se visse neles a comprovação de que a sociedade como um dia a conheceu jamais voltaria ao que era. Em cada um dos primeiros três tambores, haviam quatro garotinhas, pareciam ter a mesma faixa etária daquela que comia a barra de chocolate do lado de fora daquele barraco.
    Os corpos sem vida traziam sinais de violência. Uma sensação de desespero tomou conta dele, quando imaginou como teriam sido os últimos momentos daquelas crianças na companhia do velho. O arqueiro libertou-se do torpor que o tomara diante de tais descobertas e correu na direção da outra divisória, puxou bruscamente a colcha de retalhos e viu que haviam três camas de solteiro uma ao lado da outra, haviam roupas masculinas espalhadas pelo pequeno quarto improvisado, e roupas de cama que pareciam ter sido usadas recentemente.
-Ele não estava sozinho! - exclamou o arqueiro, sentindo o coração disparar ao ouvir os passos do lado de fora do barraco. Lá de fora uma voz masculina exclamou carregada de ódio.
-Porra painho! Que fizero co sinhô?!
    O arqueiro caminhou cautelosamente  pra fora do barraco, ao passar pela porta correu na direção em que estava a criança, pra sua surpresa e desespero, nem ela e nem a mochila estavam onde as havia deixado.
    Habilmente ele se esgueirou, rente as paredes do barraco pra se inteirar do que acontecia.
    Um homem enorme estava debruçado sobre o corpo do velho, o homem tinha as feições do ancião pedófilo e era tão grande quanto ele, logo ao seu lado havia um segundo homem, pondo as mãos na cabeça em sinal de desespero.
-Quem feiz isso co ele? - esbravejou o homem que estava abaixado.
-Com certeza não foi um dos bicho aí de fora! - respondeu o homem que estava de pé.
-Se eu pegá o corno que feiz isso eu vô fazê co ele pior do que painho fazia cas quenguinha que nóis trazia pra cá! - gritou o homem mais próximo do corpo.
    O arqueiro observava atentamente toda aquela cena, enquanto sentia o sangue ferver nas veias diante de todas aquelas descobertas macabras.
-E a quenguinha de hoje cedo?! Cadê ela?! - gritou o homem se erguendo, o filho do pedófilo tinha no mínimo dois metros de altura, além de ser um homem quase tão gordo quanto era o pai.
    Antes que ele pudesse se voltar para o outro que estava de pé, uma sombra passou rapidamente por seu campo de visão, tão rápido que ele não pode perceber um homem empunhando uma faca, tão depressa que ele só conseguiu entender o que acontecia quando aquela sombra cortou a garganta de seu irmão e o deixou cair, sufocando com o sangue que se esvaia.
    Foi tudo tão inesperado que o filho do pedófilo, mal teve tempo de perceber o homem de óculos escuros, e bandana cobrindo-lhe metade do rosto, guardar a faca no cinto e posicionar o arco que trazia preso ao corpo, tirar da aljava uma flecha, arma-la no arco e apontar pra ele.
-Você é filho daquele safado? - perguntou o arqueiro puxando a corda até o final e disparando uma flecha que acertou o homem na coxa esquerda.
    O enorme homem urrou de dor, mas permaneceu de pé.
-Foi tu que mato painho?! Fi duma disgraça!
    Contrariando a dor lancinante que o invadia o homem arrancou a flecha da coxa e correu na direção do arqueiro.
    Ao perceber que não dava tempo de preparar outra flecha o arqueiro jogou o arco no chão a tempo de ser agarrado pelo oponente que lançou-se com ele contra o barraco, o impacto foi tão violento que as paredes de madeira mais próximas a eles se quebraram e os dois foram parar dentro do barraco, mais precisamente no quarto onde haviam os tambores.
    A violência do ataque jogou o arqueiro de costas contra um dos tambores, que caiu em seguida, lançando pra fora os corpos das meninas mortas, o rosto de uma delas parou a poucos centímetros do arqueiro que se recuperava do ataque.
    O filho do velho ergueu-se rapidamente e apanhou uma enxada que estava ao lado de um dos tambores, com violência esmagadora ele golpeou o arqueiro, que no ultimo instante girou o corpo e desviou do ataque que acabou por atingir o corpo da criança morta, espatifando a pequena cabeça.
    O homem de cabelos cacheados sacou a faca e desviou de mais um dos golpes de enxada, o gordo balança a ferramenta vigorosamente, tentando acertar aquele que matara seu pai, porém o arqueiro era muito ágil e desviava de todos os golpes.
-Fica parado fi di rapariga! - gritou o gordo erguendo a enxada sobre a cabeça e golpeando com violência na direção do oponente, que deu um passo pra trás momentos antes da ferramenta fincar-se no chão a menos de um passo dele, o homem de cabelos cacheados aproveitou aquele momento, pra pisar a ferramenta impedindo que o enorme homem  pudesse ergue-la novamente. Num rápido movimento o arqueiro fincou a faca no olho direito do gordo, que gritou desesperadamente, o arqueiro puxou a faca e empurrou o peito do gordo com a sola do pé, a faca saiu do orifício aberto enquanto o corpo enorme chocou-se contra o chão.
    O gigante gritou, xingou e ameaçou.
    O arqueiro fez silêncio, caminhou até o arco e o tirou do chão.
-Sabe, o seu pai também esperneou igual cadela um pouco antes de eu abrir a cara dele. Você gosta?
    O gordo gritou de ódio:
-Gosto do que seu bosta?!
-Do grito das crianças, do terror nos olhos delas, me responde, você gosta? - falou o arqueiro tirando do chão uma flecha e armando no arco.
-Vá se fudê seu arrombado! - esbravejou o gordo quase desmaiando com as dores que o acometiam.
-Eu gosto de gritos.- falou calmamente o arqueiro, enquanto puxava a corda do arco até o limite.
-É claro que não dos gritos de crianças. - dizendo isso disparou a flecha que transpassou o ombro do filho do pedófilo, arrancando dele um grito ensurdecedor.
-Mas gritos como estes seus... - o arqueiro suspirou como se saboreasse o seu prato preferido. -São como musica pros meus ouvidos.
    O homem gemia de dor, e já estava sentindo dificuldade em manter-se acordado.
-Acaba logo com isso seu corno. - murmurou o gordo entredentes.
-Vocês acabavam logo com as meninas?! - gritou o arqueiro, sua voz havia se transformado num rugido colérico. - Acabavam com o maldito sofrimento que vocês mesmo causavam?! - gritou ele posicionando mais uma flecha no arco e apontando pro gordo.
-Eu não vou acabar com seu...
    Um estrondo encheu o ambiente.
    Um tiro!
    O arqueiro cai no chão com o impacto de um tiro nas costas.
Continua...

sábado, 15 de agosto de 2015

 

Pé de cabra - capítulo VII - O verdadeiro mal está por vir.
 
    Amanheceu.
    O céu nublado despejava sobre o posto, que havia sido palco de uma sangrenta batalha na noite anterior, uma garoa fina e gelada.
    Ao menos quarenta das criaturas estavam espalhadas, como funéstas aves carniceiras, entre a loja de conveniências e o espaço sob a cobertura do posto. Eles devoravam os corpos dos dez homens, que poucas horas antes haviam atacado o bando dos garotos.
    O rugido grave e encorpado de motores foi detectado por um dos zumbis que estava na beira da calçada. Era um homem gordo de barba branca por fazer, usava um terno cinza chumbo, sujo de sangue e fezes, em sua barriga havia um corte de onde seus intestinos se projetavam pra fora.
    A criatura seguiu cambaleante até o meio da rua e grunhiu, como se tentasse encontrar a origem daquele som.  Outros dois se aproximaram com seus passos desajeitados, exalando um cheiro podre de fezes humanas e carniça. Os três permaneceram parados como que concentrando esforços pra descobrirem a origem do inquietante barulho.
    Um caminhão Mercedes Bens 1113 com lanças de metal presas ao seu parachoque, formando uma espécie de soco inglês gigante, subia a rua em direção ao posto. Em sua caçamba vinham dez homens fortemente armados, esses homens usavam camisetas cobrindo as cabeças, como faziam os presos rebelados.
    O motor rugiu como uma fera ensandecida, que foi de encontro as criaturas paradas no meio da rua. O violento impacto mandou pra longe os pedaços de cadáveres ambulantes. Sangue preto, fluidos corpóreos, membros decepados e intestinos fixaram-se ao caminhão que não freou, apenas diminuiu a velocidade e parou em seguida, a cerca de duzentos metros do posto. Outros dois caminhões que seguiam os mesmos moldes do primeiro subiram a rua e pararam em frente ao posto, seguidos de perto por uma Blazer da policia militar do estado de São Paulo.
    Toda aquela movimentação chamou a atenção de alguns dos mortos vivos que se ergueram de onde estavam e caminharam rumo a calçada, todos os que estavam sob a proteção do posto seguiram na direção dos veículos.
O primeiro caminhão voltou de ré e parou diante do posto.
Da porta do motorista uma nova figura surgiu trazendo consigo uma marreta com um longo cabo de metal. A primeira vista parecia um homem muito grande, facilmente passando dos dois metros de altura.
O gigante com a marreta caminhou a passos largos em direção a horda que vinha de encontro a ele.
Tal qual os companheiros que o acompanhavam na caçamba, seu rosto também estava coberto por uma camiseta a moda dos "cadeieros" rebelados.
As criaturas já haviam formado uma meia lua ao redor do colosso, com a mascara ninja de camiseta,  quando seus poderosos braços se ergueram e com força esmagadora projetaram a enorme marreta contra a primeira criatura, que tombou com a violência do golpe. O crânio pútrido explodiu espalhando massa encefálica pra todo lado. O impacto foi tão violento que o gigante teve de empregar força na tarefa de arrancar a marreta da perfuração que havia sido aberta no concreto da calçada.
Em passos lentos, outros seis zumbis, se aproximaram apenas pra serem esmagados a golpes de marreta. O corpo de formas rechonchudas movia-se rápido e com extrema violência os ataques disferidos derrubavam e explodiam os crânios em movimentos únicos.
    Um pequeno amontoado de zumbis abatidos se formou ao redor daquele gigante, que parou por um instante, ofegando apoiando o braço sobre a ponta do cabo da marreta que estava posicionada sobre a calçada. Sinalizou aos homens que estavam nas caçambas dos caminhões pra que eles descessem.
    Cerca de dez homens desceram dos caminhões, permanecendo a maioria brandindo suas armas, ainda de pé sobre as caçambas dos veículos.
    Os homens que desceram caminharam com armas em punho.
    O som dos tiros encheu o ambiente.
    Em alguns minutos o terreno sob o teto do posto estava livre de zumbis.
    O gigante com a camiseta amarrada na cabeça seguiu atrás dos homens que abriam caminho atirando. A marreta descansava sobre o musculoso ombro direito, enquanto a enorme figura caminhava chegando cada vez mais perto da porta da loja de conveniências, de onde outros tiros ainda foram disparados.
-E aí? - perguntou o gigante, com voz forte e inconfundivelmente feminina, que colocaria em duvida qualquer um que ouvisse o som de sua fala, qualquer um que não tivesse reparado os seios pequenos sob a camisa folgada e os quadris largos dentro da calça de moletom.
-Todo mundo morto. - respondeu um dos homens armados.
    Ela se aproximou e pelas roupas rasgadas reconheceu o irmão caído, chegou mais perto de seu corpo e percebeu que havia um buraco de bala num dos olhos.
-Pelo jeito não foram os zumbis que mataram eles. - disse a mulher com voz calma.
-Tem sinais de tiroteio aqui dentro. - falou o mesmo homem.
-Nós acompanhamos as ultimas transmissões de rádio deles, disseram que tinha uma garota e uns moleques aqui. - disse um homem branco se aproximando, tinha por volta de quarenta anos e usava a farda da policia militar do estado de São Paulo.
-Disseram também que estavam oferecendo resistência e "apagaram o Martins". concluiu o policial.
-Filhos da puta. - gritou a mulher. -Meu irmão era a unica família que eu tinha! - esbravejou ela dando uma marretada na parede, abrindo um buraco.
    Seu ser havia sido invadido por um enorme sentimento de vingança, estava cega para as causas daquilo tudo, não interessava se aqueles homens queriam a garota a força ou não, o mundo lhes pertencia agora, e tudo o que quisessem eles teriam.
    Os mortos se levantaram, acabaram com toda a estrutura da sociedade, aquelas pessoas que outrora foram os páreas é que faziam as regras agora.
    Suas lágrimas não rolaram, mas seu ser transbordava de ódio. Ela se apoiou na porta e olhou pra fora do posto, quando uma voz vinda de dentro da loja chamou sua atenção.
-Aí Bia, olha só o que eu achei! - gritou um dos atiradores vindo em sua direção, trazendo nas mãos uma mochila cor de rosa aberta, de onde tirou uma foto em que estava uma garota de olhos azuis e cabelos chanel, junto de quatro garotos.
    Ele entregou a foto a mulher, que retirou a camiseta da cabeça, revelando seus cabelos raspados e sua pele clara, ela tomou a foto nas mãos, olhou aquele pedaço de papel fotográfico como se estivesse diante de um mapa do tesouro. No fim da busca não haveria dinheiro ou pedras preciosas, na verdade naquela altura dos acontecimento aquilo já não valia mais nada.
    Os sobreviventes estavam em busca de motivos pra seguirem em frente, motivações que já não tinham ligação com o valor dos bens materiais.
    Aqueles que até aqui haviam sobrevivido, em sua maioria, era forte o bastante pra lidar com aquela maldição que fazia com que os mortos voltassem a andar, famintos e cheios de fúria contra os vivos. Mas nem todos estavam a fim de uma existência pacífica, naquela terra que agora pertencia aos zumbis.
-A gente tem uma vadia pra caçar! - falou a mulher que empunhava a marreta, com um sorriso doentio nos lábios.

sábado, 8 de agosto de 2015








Pé de cabra capítulo VI - Mais forte agora


    A estrada estava escura.
    O poderoso ronco do motor, da Harley Davidson Night Rod Special, soava quase como um grito que saudava a sobrevivência. A moto seguia na frente, pilotada pela bela ruiva com o lenço de maxilar de caveira cobrindo-lhe o rosto. Logo atrás as duas Blazers da policia militar a acompanhavam.
    Uma fina e insistente garoa brindava os vitoriosos sobreviventes daquela noite tenebrosa.
    As únicas luzes que podiam ser vistas eram os faróis da moto e dos carros. Eles passaram pela cidade de Santana do Parnaíba, próximos ao seu centro histórico.
    Volta e meia avistavam algumas das criaturas que ao perceberem os veículos agitavam-se e tentavam em vão persegui-los, as ruas estariam desertas se não fossem alguns poucos zumbis.
    Lock abriu a janela e em seguida acendeu um cigarro, que prendeu entre os lábios.
-E ai mano, ta tudo bem? - perguntou Lock olhando pelo retrovisor o amigo que estava no banco de trás.
-Tranquilo. - respondeu Tony sem desviar o olhar do que estava fazendo. -To dando uma olhada no que conseguimos nessas mochilas.
-E aí? Algo interessante? - perguntou Lock, focado na estrada escura.
-Conseguimos mais algumas armas, munição, duas granadas, tem uma bolsa cheia de medicamentos também, umas bandagens, apetrechos de primeiros socorros e tal.
-Entendi. - respondeu Lock, olhando o carro da frente dar seta pra direita.
    Estavam entrando em uma estreita estrada de terra, que ficava cada vez mais íngreme, somente os faróis dos veículos propiciavam a iluminação daquele percurso.
-E ai Lock, salvos pela lenda viva pós apocalíptica, qual a sensação? - perguntou Tony sorrindo.
-Felicidade extrema manolo, ainda mais porque o tal "Pé de cabra", é simplesmente a mina mais gata que eu já vi na vida. - respondeu Lock olhando pelo retrovisor com um sorriso largo.
-Deve ser também a mais forte. - respondeu Tony com olhar intrigado.-Viu como o pé de cabra que ela jogou atravessou a cabeça do vagabundo e ficou travado na parede?
Lock ficou em silêncio e olhou o amigo pelo retrovisor.
-No mínimo estranho mano, já é dificil perfurar um crânio de zumbi estando perto, imagina jogar lá de fora do posto, atravessar um crânio e se cravar na parede sustentando todo o peso do corpo do infeliz.
    Os dois ficaram em silêncio pensando naquilo tudo.
-Ainda bem que não foi na minha cabeça! - enfatizou Lock, arrancando um sorriso do companheiro no banco de trás.
    Enquanto isso no carro da frente.
    Mayara estava no banco do passageiro segurando a espingarda calibre doze, separando munição e recarregando a arma. Ela não havia dito nada desde que deixaram o posto.
    O clima ainda estava tenso em virtude dos últimos acontecimentos.
    Os garotos sentiam a tensão e trocavam olhares através do espelho retrovisor, encorajando um ao outro a dizer algo, Daniel quebrou o silêncio:
-E ai May? Como você tá? - disse pondo a mão no joelho da amiga.
    A garota olhou-o com os olhos marejados, encarou-o por um instante em silêncio e olhou a mão do amigo em seu joelho.
    Mayara suspirou profundamente, e sobre a mão de Daniel colocou a sua, retribuindo o carinho do amigo. Ela sorriu levemente e olhou pra estrada pelo pára brisas
-To bem... Mesmo com tudo o que aconteceu, eu to me sentindo muito bem.
Ela fez uma pausa tentando reforçar o sorriso.
-Aquele cara ia me estuprar, mesmo em desvantagem vocês me defenderam, arriscaram suas vidas por mim.
    A garota ficou em silêncio por um instante, e olhou pela janela.
    Lucas pôs a mão em seu ombro e se aproximou, ela deixou a espingarda sobre o colo e apoiou a outra mão sobre a dele, e sobre ela abaixou a cabeça apoiando o rosto.
-Eu to me sentindo mais forte agora, nunca tinha atirado numa pessoa, mas estourar o joelho daquele  safado me fez encontrar um lado meu que eu nem sabia que tinha. - ela fez uma pausa - E eu to gostando muito disso.
-Então a May ta virando hominho e tá curtindo? - disse Daniel apertando o joelho da garota.
Mayara deu um gritinho acompanhado de uma gargalhada, que foi seguida por todos os amigos dentro do carro.
-Agora só falta ela pegar a Pé de cabra pra virar o macho alfa do bando. - completou Lucas.
    Eles riram alto.
    Lucas recostou-se no banco, curtindo aquele momento de felicidade que tanto custou a chegar, olhou os amigos sorrindo depois de toda aquela tensão e sentiu que uma vez mais a faísca de esperança se acendia.
    Mayara agitou-se no banco da frente, estava a procura de algo, após ter olhado sob o banco do passageiro, voltou-se pra Lucas e questionou:
-Lucas, você pegou a minha mochila?

Continua...

sábado, 1 de agosto de 2015

Desabafando...



As vezes parece que não vai acontecer, parece que estou sozinho em busca de um sonho.
Quando você ouve muitos "nãos" alguns "sins" e "sins" que na verdade são apenas enrolação, tudo fica muito mais difícil.
Meu coração estava inquieto diante disso tudo, como se significasse, que meus sonhos não sairiam do papel, e que eu não devia continuar tentando.
Mas hoje um velho amigo acabou por superar minhas expectativas e me mostrou que eu não apenas não estou só, como também amparado por um grande artista. 
Sei que outros talentos se juntarão ao meu em busca desse sonho, mas esse primeiro passo dado jamais será esquecido. 

Muito obrigado Mestre.