sábado, 10 de outubro de 2015
Capítulo XIII - Profanando o sagrado
Choro de mulher.
Era o choro da sua mulher.
Sentiu as lagrimas turvarem sua visão, estava caído no chão, o tiro transpassara seu peito.
Um grito.
Grito de mulher.
Era o grito da sua mulher.
O sangue esvaia-se rapidamente.
Estava caído na entrada da igreja. Os bancos o impediam de ver o que acontecia, mas os gritos enchiam seu coração de terror.
Ao coro do desespero juntavam-se os gritos de sua filha adolescente.
Risadas.
Gargalhadas.
Vozes de homens vinham de todos os lados. Nenhum deles veio prestar socorro, nenhum deles veio em paz.
O homem que era pai e marido desfalecia lentamente, enquanto seu sangue ainda quente tingia profanamente aquele local sagrado. A alguns metros dele, mais precisamente no altar daquela igreja, a mulher e a filha eram violadas, dolorosa e repetidamente.
Ele chorou.
Estava com frio.
Muito frio mesmo.
-Pé...
A voz do homem não saiu mais do que um sussurro. Ao seu lado uma mulher enorme sentada num dos bancos da igreja, observava os companheiros atendendo aos chamados de seus desejos carnais. Ela notou que ele balbuciava algo.
-Sa...
-Os meninos só querem diversão amigo. - falou ela baixando-se ao lado dele.
-Deus... - falou ele arfando.
Os gritos das mulheres ficaram mais altos e tomados de desespero.
-Relaxa tiozão, meus meninos vão cuidar bem delas.
-Pésa ... Se... - arfou tentando não se engasgar com o sangue que lhe subia pela garganta.
-O que você tá falando aí? Fala alto porra! - gritou a enorme mulher que caiu na gargalhada ao lado do homem caído.
Frio.
Muito frio.
A perda de sangue causava isso.
O sangue ia e o frio chegava, e com ele, em pouco tempo viria a morte.
O homem caído sabia disso.
Sabia que era o seu fim chegando, que a morte lhe agarraria pelos calcanhares, juntou as forças que restavam, sua mente clamava por consciência, não podia deixa-las.
Não podia deixa-las.
Eram tudo pra ele.
Frio.
Muito frio.
Os gritos cessaram.
Não lutavam mais.
Cediam resignadas a agressão que sofriam. Os corpos masculinos suados revezavam o prazer pecaminoso no altar profanado. Uma cruz atrás do altar expunha um Cristo silencioso. O filho de Deus castigado no madeiro parecia sofrer com aquilo tudo, vendo violadas a sua igreja e suas filhas.
O Cristo permaneceu imóvel.
-Deus... - gemeu o homem.
O sangue escorria pelo canto da boca, enquanto ele balbuciava algo ininteligível, até mesmo para a mulher ao seu lado.
-Cala a boca aí o arrombado, suas meninas tão dando um show ali na frente, deixa eu curti essa porra em paz. - falou a mulher com uma frieza surpreendente na voz.
Lagrimas turvaram sua visão, só conseguia enxergar os bancos da igreja. Ouvia as risadas e os palavrões.
A consciência deixava-o aos poucos.
-Pesa sua...
-Arrombado do caralho, não cala essa boca! - a mulher se levantou e foi até um canto da igreja, onde os homens haviam deixado suas armas, pegou uma espingarda calibre doze e voltou com ela na direção do homem caído.
-Pesa Sua mão sobre eles Deus.
O barulho estrondoso do tiro encheu a igreja, a cabeça do homem explodiu.
As mulheres gritaram desesperadas, se debateram, tentaram num esforço animalesco se libertarem do domínio de seus algozes, queriam chorar, queriam um tempo, queriam se derramar em lágrimas e sofrimento.
Queriam o pai e o esposo de volta.
-Relaxa doutor, meus meninos vão cuidar bem dos brinquedinhos deles. - falou a mulher enorme sorrindo o seu sorriso doentio.
O tiro, os gritos de desespero e os gemidos invadiram os ouvidos de Bia, mas não antes dela ouvir as últimas palavras daquele homem:
"Pesa Sua mão sobre eles Deus."
Ela ficou estática por alguns instantes, enquanto observava seus meninos se divertindo com os novos brinquedos. Embora não quisesse admitir aquelas palavras tiveram algum efeito sobre ela.
-Bia! - gritou um dos homens que montava guarda do lado de fora da igreja.
O grito tirou-a de seu estado de torpor e a trouxe de volta a sua posição de liderança.
Com a espingarda calibre doze em mãos ela caminhou na direção da porta.
-Tão vindo Bia, tem um monte deles vindo aí!
A igreja em que os últimos acontecimentos se desenrolaram fica no centro histórico da cidade de Santana de Parnaíba, varias ruas e escadarias convergiam na direção dela, e de todos esses caminhos dezenas de mortos vivos surgiram.
-Porra! Fudeu! - gritou Bia, em seguida voltou-se para os homens dentro da igreja.
-Acabo a farra bandidagê, tem varios "podrão" chegando, bora abrir caminho pra sai fora.
-E o que a gente faz com as "vadia"? - gritou um dos homens no altar.
-Passa geral! - gritou Bia.
Um tiro foi disparado, e a mãe tombou diante da filha que gritou no limite de suas forças e controle emocional.
Nesse ínterim os gritos dos homens do lado de fora foram ouvidos, estavam sob ataque.
A garota estava nua, prostrada sobre o corpo da mãe. A movimentação dos homens ao redor tornou-se frenética, varias criaturas invadiram a igreja, seus agressores ainda nus em sua maioria, corria em direção as armas.
Bia atirava nos que se aproximavam, os tiros ecoavam no interior da igreja, os pedaços dos zumbis juntavam-se a pedaços dos bancos, das paredes e do piso. Os gemidos das criaturas eram ensurdecedores e elas avançavam ferozmente contra os homens dentro da igreja.
Um grito masculino chamou a atenção de Bia, a alguns metros dela um de seus meninos fora derrubado por três das criaturas.
-Helião?! Porra!
Ela correu na direção do homem loiro de olhos azuis, atirou duas vezes acertando a primeira criatura, outras duas permaneceram intactas, a mulher enorme engatilhou a doze mais uma vez, mas o tiro não saiu, as balas acabaram.
-Que porra! - gritou ela.
Segurando a arma pelo cano ela a manejou como se fosse um taco de baseball e acertou na têmpora a primeira das criaturas, uma mulher gorda que usava, um vestido preto sujo de sangue, fezes e vômito, ela caiu sobre os bancos com o impacto violento, tombando com um enorme buraco na cabeça. O outro, um homem sem um dos braços mordia violentamente o peito de Helião, o loiro que pertencia ao bando de Bia, os gritos do homem enchiam aquela mulher bruta de terror.
-Porra Helião! Porra! Não morre caralho!
Um golpe perfeito na nuca do ultimo zumbi jogou-o contra a parede, a criatura fez menção de levantar-se, porém o cabo da espingarda esfacelou sua cabeça, tamanha a força da mulher que a empunhava.
As criaturas que entravam pela porta da igreja foram alvejadas pelos homens, que recompunham-se rapidamente, poucos instantes depois a entrada estava liberada.
Enquanto os homens se agrupavam ao redor de Bia aguardando direcionamento, ela acalentava Helião tomando-o nos braços.
-Não quero morrer Bia, não me deixa! - choramingava o homem ferido, haviam mordidas em seu peito e braços.
A mulher já havia percebido o funcionamento daquela praga, sabia que não restava muito tempo pro comparsa.
-Caralho Helião! Como você deixou essa porra acontecer?! - falou ela indignada.
-Não me deixa morrer Bia! - gemeu o homem caído.
Os homens ao redor se olhavam aguardando o desfecho daquela cena.
Tiros lá fora.
Haviam mais das criaturas chegando, em pouco tempo a igreja estaria infestada.
-Porra Bia, vamo embora logo! - gritou um dos homens do lado da mulher.
Ela se ergueu deixando Hélião no chão.
-Eu não quero morrer Bia, não me deixa aqui porra!
-Caralho Hélião, você vacilou parça, sabe que isso não tem cura. Aí você me fode Hélião. - gritou a mulher mantendo no olhar uma expressão de dor, que se misturava a raiva que sentia, não queria que fosse daquele jeito, mas naquele novo mundo as decisões fáceis estavam em extinção.
Bia se ergueu, ela tinha de se manter fria, era líder daqueles homens, não podia abandonar sua posição, não era hora de demonstrar fraqueza, simplesmente não podia. Aqueles homens violentos só respeitavam a força, precisavam de alguém forte à frente.
Considerava Hélião. Eram conhecidos de bairro, antes do crime, antes da cadeia já o conhecia, era praticamente um irmão pra ela, por isso ela mesma tinha que fazer.
-Arapuca! Me passa a doze! - falou ela voltando-se pra um dos homens ao seu redor.
Arapuca era um homem de quarenta e cinco anos, pele queimada do Sol e já com cabelos brancos. Ele hesitou por um instante.
-Porra Bia? - falou ele como um advogado solicitando que a sentença fosse revogada.
-Cala boca porra! Acha que eu quero fazer isso?! - esbravejou a mulher no limite de sua paciência. Ela tomou a arma da mão de Arapuca, que estremeceu ao perceber que não era hora de reivindicar uma democracia naquela sociedade de ex-presidiários sobreviventes.
Hélião sentia a consciência despedir dele, e pouco a pouco percebia que não haveria escapatória, mal podia entender o que o ocorria ao seu redor, a dor era insuportável, sentia o sangue misturar-se ao suor que corria pelo corpo, os olhos azuis lutavam pra permanecer abertos, procurando esperanças ao redor. Tudo o que encontraram foi o desespero e a aspereza daquelas pessoas que nos últimos tempos foram seus companheiros de sobrevivência.
-Eu quero viver Bia. - gemeu o homem caído, em seus últimos suspiros desesperados.
Bia engatilhou a doze.
-Também quero irmão. - respondeu a mulher.
O som estrondoso do tiro encheu a igreja uma vez mais, os pedaços da cabeça se espalharam diante do grupo. Eram homens endurecidos pela cadeia, ainda assim sentiam quando algum dos seus morria, sabiam que naquele novo mundo quantidade era equivalente a força.
-Bora porra! Não é hora de choradera! - gritou Bia tirando todos daquele momento de lamentação.
Os homens correram pra fora da igreja, os zumbis vinham de varias direções, eles abriram caminho entre as criaturas atirando, Bia corria com a doze nas mãos.
-Bóra! Todo mundo pros caminhões! - gritou a mulher.
Os veículos estavam parados nas ruas ao redor da praça em que ficava a igreja, todos conseguiram alcançar os caminhões.
Enquanto ajeitavam-se pra fugir o som do motor de uma moto chamou a atenção de alguns deles, inclusive de Bia. De trás da igreja, numa moto a garota que há pouco serviu de diversão pra eles escapava nua da cintura pra cima.
-Olha lá! - gritou um dos homens na caçamba do caminhão.
A garota seguia na direção oposta a deles, tomando distancia rapidamente.
Bia olhou ao redor, seus homens haviam conseguido algumas motos no caminho do posto até o centro de Santana de Parnaíba.
-Quero aquela vadia de volta, ela é nossa propriedade! Arapuca e Nelsinho, vão atrás dela!
Sem pestanejar os homens se armaram de revólveres e tomaram duas motos, e rapidamente arrancaram no encalço da garota.
-Essa vadia tem de entender que ninguém foge da Bia. - falou a líder do bando, vendo seus homens caçando a garota.
Continua...
sábado, 3 de outubro de 2015
Capítulo XII - O bom homem com o arco
Naquela tarde, após terem deixado os corpos da família de pedófilos pra trás, foram até a Fiorino, onde encontraram morta a mãe da garotinha. Ele já sabia da morte da mulher, ainda assim ficou com aquela sensação ruim que a cada dia passou a fazer parte de suas experiencias, a sensação de que as coisas sempre pioravam, de que na maioria das vezes as piores situações seriam as mais comuns.
Conseguiram retirar a cadelinha de dentro da Fiorino, ela estava assustada, mas estava bem. Ele juntou os pertences da criança e as levou do local do acidente, pra um dos galpões abandonados da avenida Fernando Cerqueira Cézar Coimbra.
A pequena seguiu silenciosa por todo o caminho, abraçada a cadelinha como se depositasse nela as esperanças de que a dor e o sofrimento que a acometiam pudessem ir embora logo.
Instalaram-se numa pequena cozinha dentro do galpão, havia um gabinete de pia de quase dois metros de comprimento, onde o arqueiro forrou com grossas cortinas, criando uma pequena "toca", onde deixou a menina e a cadelinha.
-Curtiu sua toca? - perguntou o homem com o óculos modelo aviador, sentado em posição de lótus, enquanto mexia nas cordas do arco composto sobre o colo.
A criança que estava deitada entre as cortinas, abraçada a filhote de Pastor Alemão, olhou em silêncio aquele homem por um instante, até responder num fio de voz.
-Curti.
Ele sentiu a tristeza naquela voz infantil, mas sua expressão não se alterou enquanto falava com a menina. Ela permaneceu observando-o, retirou da mochila o revólver calibre 38 de cano curto que havia tomado do velho.
-Isso aqui vai ficar com você. - falou ele estendendo a arma pra ela.
A menina ficou parada observando aquele homem incomum, que havia salvo sua vida, oferecendo-lhe uma arma.
Ela hesitou um instante.
-Eu sei que você tá triste e que provavelmente sua tristeza ainda vai durar um tempo, dizendo isso ele recolheu o braço e pos o revolver no colo. - Mas você precisa entender uma coisa, esse mundo pertence aos que sabem se recuperar rapidamente, aos que sofrem e conseguem ficar alertas logo em seguida.
A pequena olhou-o em silêncio
-Não dá pra trazer a sua mãe de volta, não dá pra trazer a sua vida de volta, nem posso garantir que daqui em diante será bom. - dizendo isso ele coçou a barba escura.
Os olhos da garotinha marejaram e ela apertou ainda mais a cadelinha, de dentro da sua toca de gabinete de pia.
-Mas eu te prometo dua coisas. - ao dizer isso o arqueiro pegou as flechas que estavam no chão ao lado dele.
A criança mudou o semblante, a tristeza tinha dado lugar a atenção.
-Primeiro prometo que nunca mais você será tocada por algum safado, enquanto eu viver, e que se isso vier a acontecer o infeliz terá um destino ainda pior do que tiveram aqueles imundos que encontramos hoje. - dizendo isso ele fez silêncio e passou a inspecionar as flechas que restaram.
A menina deixou de lado o ar assustado, seus olhos tristes adquiriram uma luz que há muito os havia abandonado.
Esperança.
Aquele homem de barba e óculos escuros havia renovado as suas esperanças.
Ela se sentiu protegida diante dele, talvez fosse essa a sensação de ter um pai de verdade, de ter por perto um homem determinado a protegê-la.
Ela ensaiou um sorriso.
Olhou aquele homem forte e de aparência incomum trocando as pontas das flechas, ele não olhava pra ela enquanto fazia aquilo, estava concentrado na tarefa de restaurar as suas setas pra que estivessem prontas quando o perigo chegasse novamente.
O sorriso saiu mais fácil dessa vez.
Os olhos cor de mel do arqueiro espiaram por cima dos óculos escuros, enquanto ele manuseava uma ponta afiada. A pequena fitava-o com curiosidade.
-Qual é a segunda coisa? - perguntou a voz feminina pré púbere.
-A segunda coisa? - perguntou o arqueiro ainda de cabeça baixa.
-Qual é?
Ele ergueu a cabeça, ajeitou os óculos escuros e passou a língua nos lábios.
-Eu prometo que vou te ensinar.
-Ensinar o quê?
-Tudo o que eu puder ensinar pra fazer de você uma pessoa tão forte quanto eu.
Ela olhou-o um instante, só o silêncio falou durante aquele momento. Uma lágrima rolou no rosto da criança.
-Queria ter aprendido isso antes. - dizendo isso ela fechou a porta corrediça do gabinete, lentamente.
Ele ficou do lado de fora observando, ouviu o choro dela vindo da toca improvisada, percebeu que ela se aconchegava lá dentro.
-Eu também queria criança. Você não faz ideia do quanto. - aquelas palavras saíram baixas, sem o menor desejo de serem ouvidas, apenas o sussurro cabisbaixo de alguém que teve de se tornar forte, impulsionado pela fúria de um mundo que já não aceitava as sutilezas como algo saudável.
O arqueiro se levantou, de pé, puxou a corda do arco até o limite, depois a trouxe de volta, impedindo que um tiro seco fosse disparado.
Respirou fundo.
Fez uma pausa olhando pro gabinete fechado, ouviu o choro da menina, passou a mão na testa e invadiu com os dedos os cabelos, lembrou de algo na mochila, correu até ela e voltou parando novamente diante do gabinete.
-Princesa, você gosta de M&Ms?
-Não. - respondeu a voz chorosa lá de dentro.
-Que bom, porque eu não tenho M&Ms. - falou o arqueiro do lado de fora.
De dentro do gabinete ele ouviu um risinho.
-E de Twix? Você gosta de Twix?
-Tem Twix aí?
-Não sei, você gosta de Twix?
-Gosto, é o meu chocolate preferido!
-Hum, então acho que você tá com sorte! - falou o arqueiro em tom de comemoração.
A porta do gabinete se abriu, e ela pôs a cabeça pra fora.
-Por que eu tenho aqui comigo um saco de balas de gelatina! - falou ele como se estivesse anunciando ao ganhador da Mega Sena o valor de seu prêmio.
Ela desfez o sorriso e encarou o arqueiro.
-Para de drama, senão eu vou comer tudo sozinho. - falou ele sorrindo.
Diante daquilo, uma lembrança criou um pequeno filme na cabeça da menina, sua mãe simplesmente amava balas de gelatina, principalmente aquelas de ursinho iguais as que estavam nas mãos do arqueiro. Sua mãe era enfermeira e trabalhava no turno da noite no Sameb em Barueri, em virtude disso elas simplesmente não tinham muito tempo juntas, mas todas as vezes em que paravam pra ter um momento mãe e filha, sua mãe dava um jeito de arrumar um pacote daquelas balas.
Lembrou-se de estar , envolvida no abraço da mãe, em noites frias como aquela, enquanto assistiam a algum filme juntas. Lembrou que no cinema, além da pipoca e do refrigerante aquelas balas sempre estavam presentes.
Ela sorriu.
Sem planejar, sem ao menos desejar ela se pegou sorrindo.
O som do plastico se rompendo e dos dedos do arqueiro remexendo as balas invadiu os seus ouvidos.
-De qual cor você gosta mais?
-Da azul! - respondeu ela sorrindo.
-Opa, vem cá ursinho azul, a casa caiu pra você malandro.
Os olhos dela se encheram de luz, sua mãe também brincava daquela forma como se estivesse caçando os ursinhos de gelatina.
-Aqui princesa. - falou o arqueiro estendendo a mão aberta com dois ursinhos azuis. -Eu também gosto mais dos azuis, mas esses são pra você.
As mãos se encontraram, e uma sensação boa envolveu os dois, por um instante ela voltou a ser criança, esquecendo-se das agruras daquele novo mundo, esquecendo da morte da mãe, e por um momento aquele homem, endurecido pelo terror daqueles novos tempos, lembrou-se de como era ser pai.
Naquela noite eles conversaram.
Ele contou que se chamava Vicente
Ela contou que se chamava Ráissa.
-Raíssa? - perguntou ele.
-Não, Ráissa igual se pronuncia o "ra" de barata.
-Interessante, por que se pronuncia assim?
-Meu avô era armênio, ele falava desse jeito, minha mãe queria que eu tivesse algo dele.
Ela contou também sobre o genocídio armênio e sobre como os seus bisavós escaparam do massacre com seu avô ainda criança.
Ele prestou atenção a tudo o que ela disse, surpreendeu-se com a forma clara que ela usava pra falar sobre si e sobre a família, apesar de pequena ela tinha um vocabulário variado.
-Quantos anos você tem?
-Doze, e você?
-Trinta e cinco.
-Minha mãe também tinha trinta e cinco, você ia gostar dela.
-Imagino que sim, se ela fosse tão linda e agradável quanto você.
A pequena Ráissa sorriu, olhando aquele homem e pensando em sua mãe, imaginou que seria bom tê-lo como pai, imaginou como seria passear com ele, sua mãe e a cadelinha, no tempo em que a praga ainda não havia tomado conta do mundo.
A cadelinha saiu da toca e foi na direção do arqueiro que estava de pé, ele baixou-se e sentou na posição de lótus novamente, pegou Katchuça nos braços e a aconchegou entre as pernas, a filhote de Pastor Alemão abanava o rabo, até se aconchegar no homem e adormecer.
Ráissa, olhou-os interagirem sentindo uma mistura de sentimentos invadirem-na, a tristeza por não ter mais sua mãe, pra que as duas fossem protegidas pelo arqueiro, alegria por terem encontrado Katchuça e por elas estarem acolhidas e protegidas por ele.
Ela pensou em tudo e em todos que havia perdido, pensou em como se sentia mal estando só, diante dos homens maus que a encontraram, então lembrou-se do velho, lembou-se do que ele havia tentado.
Ficou assustada.
Enojada.
Lembrou-se de como o velho a olhava.
Olhou pro homem com barba de viking e coque de samurai diante dela, ele olhou de volta , pôs a mão no pacote de balas de gelatina e ofereceu a ela.
-Pega mais, senão eu vou acabar com tudo.
Ela ficou parada, seus olhos se encontraram, ele sorriu.
-Que foi criança?
-Nada.
Ele baixou o olhar e continuou a acariciar Katchuça.
O Olhar dele era diferente, não havia a maldade, nem a luxúria que haviam no do velho, havia algo bom.
Os sentimentos gritaram nela outra vez.
Medo.
Medo.
Medo.
Temeu perdê-los também.
Caminhou na direção da mão estendida, desviou-se, baixando e pegando o revólver no chão.
O arqueiro parou pra observar a pequena. Ela tomou a arma na mão, abriu o tambor e conferiu as balas, depois guardou-a na parte de trás do short, em seguida sentou-se ao lado dele.
-Você é esperta pra sua idade né?
-Meninas evoluem mais rápido que meninos.
-Onde aprendeu a atirar?
-Minha mãe namorou um policial, ele levava ela pra atirar, e ela dizia que todas as garotas deviam saber se cuidar.
-Garota esperta a sua mãe.
Mais tarde naquela noite ele havia encontrado uma lampada de emergência, a retirou da parede onde se encontrava e levou-a para a pequena cozinha onde haviam se instalado.
O som da chuva lá fora se misturava aos gemidos dos mortos vivos que passavam na estrada, não muito longe onde eles estiveram, seguiram na direção do terreno baldio, onde havia quase uma centena das criaturas, fartando-se nas carnes da família de pedófilos deixados pra eles pelo arqueiro.
O arqueiro se voltou pra garota, quando lá fora ouviu o som de freadas, em seguida uma explosão, ele correu na direção da janela que tinha vista para o portão da frente do terreno onde estava o galpão abandonado.
-O que ta acontecendo?! - gritou Ráissa.
-Não sei, mas tem gente entrando. - falou o arqueiro olhando pela janela, enquanto preparava o arco e ajeitava as flechas na aljava em suas costas.
Continua...
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