Capitulo II
Azacdrael avistou a montanha que cercava a pacata cidade de Pirapora do Bom Jesus, sinalizou aos irmãos pra que pousassem em seu topo, formaram uma fila atrás do líder que pousou primeiro seguido de perto pelos quinze irmãos que formavam sua milícia celeste, ao tocar o solo olhou ao redor apreciando a beleza das montanhas.
Respirou o ar puro e rarefeito propiciado pelas alturas.
Deitou o olhar sobre os irmãos que repousavam as asas que acabaram de vencer longa distância, os anjos que o acompanhavam trajavam túnicas azuis, braceletes dourados, pés calçados por sandálias de tiras pretas, todos com peles alvas e cabelos claros, estiveram a seu lado desde o inicio da criação na Terra, da época em que sua milícia contava com quinhentos irmãos de luz, após a contenda da traição do Portador da luz muitos deles caíram.
A cada dia o mal passou a fazer parte da vida e do modo de ser da humanidade, tornando-os vulneráveis aos ataques daqueles que outrora foram seus irmãos de luz.
Olhou o horizonte procurando o Astro-rei, que àquele horário buscava abrigo, convidando o manto negro da noite a cumprir seu legado, até o momento em que viria rasgá-lo com seus raios de luz, devolvendo-se ao mundo num novo dia.
Voltou-se aos irmãos que com muito interesse contemplavam o pôr do Sol.
Azacdrael possuía a patente de primeiro general do elemento ar, um imponente par de asas brancas repousava à suas costas, vestia uma túnica azul escura, tinha penetrantes olhos azuis, as costas repousava na bainha sua espada, companheira inseparável de inúmeras batalhas, sua lâmina já havia derrubado incontáveis inimigos em momentos decisivos, rendendo a ele incrível fama entre os irmãos de luz e tornando-o um temível oponente no campo de batalha.
O garboso anjo de longos e louros finos fios que escorriam pelos ombros, preocupava-se com a situação do diminuto exército celeste, desde o desaparecimento do lendário anjo Elemental do fogo, a situação havia ficado ainda pior, todas as milícias celestes sofreram numerosas baixas reduzindo o poderoso exército do Criador a metade dos seus combatentes.
Aproximou-se dele um dos fiéis irmãos remanescentes, Diel, que com tom respeitoso o inquiriu:
-Irmão, quando seguiremos em frente?
-Ao alvorecer irmão, a cúpula dos líderes de milícias nos aguarda, escolhas importantes serão feitas. - disse olhando-o nos olhos.
-Nossa situação atual me preocupa, nosso exército nunca esteve tão reduzido, nunca as trevas estiveram tão poderosas, se não houver alguma intervenção do nosso Criador..., realmente passarei a temer o futuro. - disse Diel desviando o olhar na direção do horizonte.
-Tenha fé irmão, mesmo que venhamos a sucumbir diante do exército das trevas, haverá outros que virão livrar o mundo da ameaça do Portador da Luz, não sofra antes da hora.
Diel meneou a cabeça em sinal positivo.
Com um sorriso direcionou o olhar ao horizonte.
Como eram belas as montanhas, cobertas por vegetação rasteira, tomadas pela noite exalavam convidativo perfume de terra molhada, sua condição de ser divino lhe permitia ver o mundo de forma muito mais abrangente.
Por isso amava-as.
Era simplesmente apaixonado por todas as coisas da natureza.
Diel sabia o quanto era necessário lutar pra proteger a existência na Terra.
Terra que cada vez mais se via ameaçada pela ira desenfreada dos exércitos das trevas que expandiam de forma assustadora sua influencia sobre a humanidade.
Humanidade que a cada dia achava-se mais cética sobre a existência do Criador, tentando de varias formas buscar comprovações de que Deus não existia, fato esse que acabava por gerar nas pessoas a semente da descrença ou das falsas doutrinas que somente conduziriam a humanidade ao engano, dessa forma a fé verdadeira diminuía causando aos anjos perda significativa de força vital, tornando-os vulneráveis aos ataques demoníacos.
Tentou afastar aqueles pensamentos observando o horizonte.
Quando percebeu uma imagem assustadoramente familiar, aproximando-se velozmente uma nuvem de seres demoníacos alados vencia a distância e dali a alguns instantes iria tragá-los com violência.
Olhou para os irmãos que como ele já haviam percebido o perigo, cada um via a sua frente ao menos cinquenta demônios, aproximando-se com velocidade avassaladora, a voz poderosa do general Azacdrael rasgou o silêncio da noite numa ordem:
-Irmãos, agrupem-se!
Imediatamente os dezesseis anjos juntaram-se formando um circulo, de costas uns para os outros, com as asas abertas tornando suas aparências mais ofensivas, todos desembainharam suas espadas, levando-as à frente de seus corpos, ávidos por combate.
Sabiam que não venceriam.
Pior ainda.
Sabiam que seria um massacre.
Não haveria como pedir por ajuda, dificilmente haveriam anjos por perto pra oferecer-lhes auxílio.
Estavam sós, haviam contado oitocentos demônios aproximando-se em ordem de batalha, sem dúvida aquela seria a ultima contenda de suas existências, que se findariam da forma pela qual haviam sido criados.
Pra batalhar.
Lutar e proteger em nome de Deus todos aqueles que viviam e proclamavam o amor.
Os olhos dos anjos arregalaram-se transbordando luz que brilhava de acordo com a cor de cada par de globos oculares.
Os demônios tocaram o solo com seus pés, patas e garras fétidos, lançando contra eles olhares carregados de ódio insano, fechando o cerco em volta dos guerreiros da luz, hesitando por um momento observando o pequeno grupo de anjos encurralados.
Era isso que alimentava seus seres, o temor, o desejo de encher de trevas toda a criação, vencer e derrubar a única barreira que havia entre eles e a sua missão, os anjos.
Demônios não eram anjos.
Eram sentimentos ruins que tomavam forma.
Pessoas que morreram com muito ódio e tiveram suas almas aprisionadas pelas trevas que os caídos emanavam.
Mesmo que não quisessem a liberalidade de suas vidas não lhes deixava escolha no momento de suas mortes, todos eram tragados para o limbo do mal que a tudo consumia.
Os anjos estavam em desvantagem, mas em momento algum demonstravam temor
Postos lado a lado, contemplavam seu fim cada vez mais próximo.
Os guerreiros da milícia de Azacdrael observavam com atenção os inimigos que de maneira aterrorizante os cercavam como que aguardando a ordem para o ataque.
Até o momento não haviam avistado nenhum dos temíveis traidores originais.
Aqueles que participaram da fatídica batalha ao lado do Portador da luz, estavam entre os inimigos mais temidos e respeitados.
Não possuíam a aparência disforme e grotesca que os demônios apresentavam, ao contrario, conservavam as aparências de seres divinos, alguns deles eram até mais belos que os próprios anjos da luz, a estes eram concedidas as lideranças dos exércitos das trevas.
Pouquíssimas vezes eram vistos em batalha, o que fazia com que sua presença num embate fosse algo realmente preocupante, seus poderes descendiam dos anjos elementais, dando a cada um deles poder sobre algum dos elementos de acordo com a sua natureza angélica, o que sem duvida fazia deles excelentes combatentes.
Um momento de silêncio total!
Olhos em chamas vermelhas acenderam-se.
Um rugido gutural rompeu o silêncio numa ordem, que fez os guerreiros da luz aproximarem-se ainda mais de seu terrível e inevitável fim, anunciado por um escabroso demônio:
-Atacar!!!
A demoníaca nuvem negra explodiu sobre a pequena milícia celeste, que foi esmagada com extrema violência.
Os anjos golpearam com todo o vigor buscando derrubar o maximo de inimigos que fosse possível.
Mas era inútil.
A cada demônio golpeado, dez novos apareciam atacando com violência redobrada.
O general da milícia golpeava com toda a força, empunhando sua espada, decapitava os inimigos e antes que as cabeças e corpos decapitados tocassem o chão reiniciava o ataque contra outro demônio, as chamas azuis provenientes de seus olhos pareciam incendiar tudo a seu redor, invocando o seu dom Elemental ele fez com que um tornado surgisse e arrasasse duas dezenas de oponentes, que foram esmagados pela violência do ataque que lançou-os ao chão, o poderoso general sabia de seu inevitável fim, por isso lutava com toda a gana e derrubava todos os inimigos que estivessem a seu alcance.
Olhou em volta e viu que os irmãos pereciam sob as garras e espadas inimigas, sobre os irmãos vencidos dezenas de demônios destroçavam seus corpos, rasgando-os com poderosas mordidas, estraçalhando-os com toda a brutalidade.
A cada momento a esperança minguava.
Sem nada poder fazer viu um a um seus companheiros indo ao chão, vencidos.
Os milênios de glória de sua milícia encerrar-se-iam naquela noite, diante da multidão de demônios eles cairiam.
Algo pontiagudo rasgou-lhe na altura do ombro esquerdo, uma espada das trevas transpassava-o naquele momento, voltou-se e com violência golpeou o demônio que o feria, derrubando-o num só golpe, sentiu dores nos membros, garras afiadas o envolviam gerando dolorosas feridas que comprometiam seus movimentos, já não conseguiria suportar aquela situação por muito tempo.
Os irmãos já estavam derrotados e jaziam aos pedaços sob centenas de demônios que como aves de rapina disputavam os pedaços de seus corpos celestes, destroçavam os anjos com voracidade, engolindo os pedaços dos inimigos vencidos.
Azacdrael sentia-se perdido sem conseguir acertar a multidão que o cercava.
Golpeava o nada, já sem direção perdido nas trevas que o envolviam.
No meio de todo aquele desespero viu a cabeça de Diel ser devorada por um demônio de corpo volumoso e asas escuras disformes e pútridas.
Os dentes afiados da criatura mastigavam com violência o rosto do bravo companheiro amante da natureza.
Ao deparar-se com tamanha brutalidade decidiu que não desistiria da luta até sentir a vida esvair-se de seu corpo celestial,
Juntou as ultimas forças e formou uma poderosa rajada na forma de um tornado que se lançou na direção daquele que findara Diel.
Estraçalhou o demônio em milhares de pedaços, a rajada circundou seu corpo dando cabo de vários demônios a seu redor, alguns abriram caminho desviando-se do ataque.
Nuvens negras tomaram o céu anunciando a tempestade que se aproximava, mas ele sabia muito bem que aquelas nuvens não significavam somente chuva, algo muito pior estava por perto, e acabou por anular o seu poder, fazendo com que seu tornado se dissipasse, os demônios aproveitaram a deixa e avançaram sobre o general celeste.
Mais perfurações.
Os braços poderosos do general sentiam as lâminas negras transpassando-lhes.
Sem forças sentiu sua espada ir ao chão.
O general não poderia mais conter a fúria demoníaca que se lançava contra ele.
Os demônios avançaram sobre seu corpo ferido e o espancaram.
Perfurações provenientes de garras afiadas feriam-lhe por todo o corpo, sem espaço para defesa, suas asas foram partidas e arrancadas de seu corpo pela extrema violência dos ataques, o brilho azul de seus olhos já havia se apagado, quando a turba demoníaca cessou o devastador ataque, abandonando seu corpo sobre a grama rala do cume da montanha.
A visão turva lhe permitia enxergar os demônios afastando-se, abrindo um circulo a sua volta.
Pôde contemplar a multidão de seres das trevas que lhe cercavam.
Um corredor formou-se, e do meio das criaturas demoníacas uma aura de cor roxa acendeu-se poderosa, dando a noite envolvente tonalidade arroxeada, até mesmo os olhos demoníacos fecharam-se diante da intensidade daquela luz que se aproximava lentamente revelando em sua fonte um anjo belíssimo, com cabelos ainda mais escuros que a noite, corpo feminino de lindas curvas, pele alva como neve e penetrantes olhos azuis, tão ou até mais belos quanto eram os do lendário general Azacdrael, a túnica num tom de roxo escuro, a cor exercia maravilhoso contraste com a pele branca do anjo de feições femininas que se aproximava calmamente, às costas majestoso par de asas repousava, na cintura bainha com espada de lâmina prateada e dourada, coxas e canelas grossas e definidas envolvidas por tiras pretas que faziam parte das sandálias que envolviam seus delicados pés.
Aproximou-se do general prostrado ao chão.
Num delicado movimento abaixou-se agarrando-o pelo pescoço com uma das mãos, ergueu-o acima de sua cabeça.
O poderoso Azacdrael ainda tocava o chão com as pernas, pois era muito maior que o anjo que o dominara, e que devia ter a altura de uma mulher mediana, em torno de um metro e setenta, enquanto que ele possuía invejáveis dois metros e trinta, porém todo seu porte não seria capaz de fazer frente ao inimigo.
Ele estava vencido, não havia forças em seu corpo, não poderia incitar nova contenda.
Indefeso.
Aguardando por seu final.
Ouviu uma vez mais os sons da noite.
Sentiu o vento soprando poderoso, trazendo consigo os aromas noturnos que se misturavam ao agradável perfume daquele anjo que lhe olhava nos olhos.
Os sons noturnos foram interrompidos pela magnífica voz feminina do anjo:
-Gostaria de dizer que é um prazer vê-lo, mas parece que nosso encontro não esta sendo prazeroso para ti valoroso irmão, ha tanto não nos vemos, parece que não sentiu minha falta.
Sorriu mostrando os perfeitos e branquíssimos dentes e continuou:
-Desculpe-me se não o enfrentei em batalha, mas sabes muito bem que eu teria acabado com você e todos os seus anjos sem muito esforço, por isso decidi dar esse prazer às minhas tropas. - fez uma pausa lançando o olhar para a turba demoníaca que silenciosa assistia a tudo, voltou-se ao general vencido e concluiu:
-Sente medo pelos humanos? Sabe que iremos devastar o que restou das milícias celestes, não sabes?, Daí então será uma questão de tempo, pra completa extinção da humanidade, isso não te preocupa querido irmão?
Azacdrael sabia o que aquilo significava, com a diminuição das milícias celestes os caídos e os demônios conseguiriam de volta a capacidade de estarem no plano físico, deixando assim de serem unicamente seres espirituais pra tornarem-se também seres físicos, provocando o fim da existência na Terra.
Claro que aquilo o preocupava.
Sabia estar derrotado.
Não podia fazer muito pra impedir aquela situação, fora vencido em batalha e agora estava a mercê de um terrível traidor original, pior ainda, aquele era nada menos que o segundo anjo da criação, aquele sem duvida seria seu ultimo momento de vida, cairia e tornar-se-ia essência divina.
- Ouça a minha voz irmão, será o ultimo som que ira ouvir, nós venceremos a luz e acabaremos com o mundo que você viveu pra proteger, seu patético exército sucumbirá diante do novo deus, aquele possuidor da verdadeira luz vira a tona reclamar o trono e levar ao poder todos os capazes de enxergar a sua verdade!
A decidida voz feminina calou-se, as palavras ecoaram no âmago de cada ser ali presente, cada demônio via-se instigado a seguir tais palavras que vinham cheias de motivação a causa a qual haviam entregado suas existências, seguiriam sua liderança até os portões do reino dos céus, caso fosse preciso.
Azacdrael sentiu sua garganta ser agarrada com ainda mais força, abriu os olhos e num ultimo esforço as chamas azuis acenderam-se, acompanhadas da voz do general:
-Muito antes do fim dessa guerra..., Você voltara a lutar pela luz!
Os olhos azuis do traidor original encheram-se de ódio, fazendo as chamas de seus globos oculares encobrirem o brilho do decadente general, apertou-lhe ainda mais o pescoço e baixou seu rosto pra mais próximo de si, passando obscenamente a língua pelo rosto ferido do gigante alado, rebateu:
-Você sempre falou demais, atrevido irmão!- ao concluir ergueu novamente o general e lançou seu corpo sobre o bando demoníaco que num breve momento estraçalhou o bravo guerreiro da luz. Liberou do próprio cinto a bainha com sua espada e jogou-a sobre o chão, sagrando a sua arma a vitória em que ela permanecera embainhada.
Asas brancas abriram-se fazendo a túnica roxa mover-se ao sabor do vento, enquanto o traidor original afastava-se em direção ao cume de uma montanha vizinha, deixando para trás a carnificina que havia liderado.
As essências dos anjos derrubados naquele combate retornaram para a consciência de Deus, com exceção da essência do general que fez um caminho diferente, seu último esforço serviria pra renovar a fé de alguém que poderia fazer a diferença naquele embate.
2 comentários:
Muito bom Presidente, fazia tempo que eu não lia algo tão empolgante e envolvente.
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