terça-feira, 23 de junho de 2015

Pé de cabra - Capitulo II

Lâmina cega e enferrujada 

    Mayara acordou com o som da porta se abrindo, a luz fraca do lampião ajudou a perceber o vulto de um homem. Ela falou quase que sussurrando:
-Lucas é você?
    O homem se aproximou em silêncio e naquele momento ela percebeu que não era o companheiro de grupo que se aproximava. Uma luz forte de lanterna ofuscou sua visão, forçando-a a proteger os olhos com as mãos.
-Não delicinha, não tem nenhum Lucas aqui!- ecoou uma voz masculina grave, vindo do homem que acabara de se revelar por ter se aproximado do lampião.
–Mas garanto que faço mais gostoso que o tal de Lucas. – disse ele se aproximando de Mayara que havia sentado no chão abandonando a posição de repouso.
    Ele baixou o corpo próximo dela e com a mão tapou sua boca.
    Ela sentiu um arrepio que misturado ao asco pelo hálito fétido e o cheiro de gasolina das mãos de seu agressor fizeram seu estomago embrulhar.
    Outros cinco homens entraram pela porta com lanternas acesas, os garotos do bando acordaram com os gritos abafados da garota ao perceberem o que acontecia.
-Pérai! Que porra é essa?! Larga a menina ô safado! – protestou Lock, rapidamente ficando de pé e apontando o seu revólver na direção do agressor de Mayara que se debatia no chão enquanto o homem tentava arrancar-lhe as roupas.
-Relaxa aí bonitão! – disse um dos homens que entrou depois, apontando a lanterna pro rosto de Lock, que voltou o olhar em sua direção e percebeu que havia uma espingarda calibre doze apontada pra ele.
- E aí? Cê acha que vale a pena tomar um tiro de doze pela mina aí? – disse o homem branco com macacão cinza, que apontou na direção de Mayara que naquele momento tentava se desvencilhar de seu agressor enquanto gemia e chorava desesperadamente.
– Claro que não vale rapaz, um tiro desses te aleijaria ou coisa pior, não tem hospital e nem SAMU agora, você ia sangrar com seus nacos de carne espalhados pra todo lado, e por quê? Só pra não ouvir a putinha gemer?
   Os gritos de Mayara enchiam o ambiente de uma angustia mortal.
   Os garotos se entreolharam com ódio no olhar.
   Ódio que se tornara tão palpável quanto qualquer coisa naquele ambiente de desespero e desesperança. De trás do balcão a voz de Tony soou colérica:
- Vai tomar no cu seu filho da puta! Ninguém aqui ta vivo por ter medo de morrer, nós sobrevivemos porque colocamos a vida do outro acima da nossa! – gritou ele erguendo-se rapidamente do chão e jogando o facão na direção dos homens na porta. A atitude de Tony deu o tempo suficiente pra Lock acertar na cabeça o homem com a doze e lançar-se ao chão em seguida.
  Vários disparos foram efetuados dentro da loja que só contava com a iluminação do lampião, mas passou a contar com os clarões dos tiros que iluminavam tudo momentaneamente e explodiam nos ouvidos de todos ali. Os homens atiravam com espingardas calibre doze e pistolas automáticas e semi automáticas.
    Enquanto acontecia o tiroteio, o homem sobre Mayara esfregava-se a ela de maneira doentia, tentando de toda forma despi-la. Agarota resistia lutando pra afastá-lo.
    Quando o silêncio tomou conta do lugar novamente.
    As balas de Lock acabaram e ele se arrastou pra trás do balcão de concreto que ficava depois de algumas prateleiras de metal no fundo da loja. Os tiros cessaram quando os invasores perceberam que os garotos não estavam mais revidando.
    Os quatro homens se depararam com o companheiro atingido por Lock no chão, com um buraco no olho direito e uma poça de sangue ao redor da cabeça.
- Esses filhos da puta acertaram o Martins, porra! – gritou um deles se jogando sobre o cadáver do homem caído a sua frente os outros se agitaram e começaram a gritar ameaçadoramente:
- A gente vai foder essa mina e depois vai foder vocês seus filhos da puta! – gritou um deles voltando-se pro balcão, porém foi contido pelo companheiro ao lado que o segurou pelo braço e fez um movimento com a mão pedindo que ele se acalmasse, tirou um radio do bolso que tocava:
- Na escuta! – disse ele trazendo o radio próximo a boca.
- Alguma novidade aí com vocês? Câmbio! - Soou uma voz masculina com o característico som da transmissão via radio.
-Tem uma gostosinha e mais uns moleques aqui, eles ofereceram resistência e até apagaram o Martins! Câmbio! – disse ele fazendo uma pausa e parando pra olhar a garota que se debatia sob seu companheiro de grupo que tentava tirar suas roupas a todo custo.
- Desgraçados! – praguejou a voz vinda do rádio. – Pode começar a festa com essa vadia e avisa ela que tem mais gente chegando, e segura esses moleques que a gente vai passar geral quando chegar aí! Câmbio!
    Aquelas palavras, junto do choro e os gemidos de Mayara invadiram cada um dos garotos como uma lâmina cega e enferrujada, dilacerando suas carnes, rasgando suas esperanças e trazendo consigo a infecção de todo aquele mal que se espalhara pelo mundo.
    O choro desesperado da garota se intensificou quando o homem baixou as calças e esfregou seu membro rígido em sua barriga.
- Guarda um pouco dessa vadia pra nós, estamos quase aí! – falou uma outra voz masculina vinda do radio num tom carregado de pura excitação.
- E aí delicia, hoje você vai dar conta de pelo menos uns dez! – Disse o homem que estava em cima de Mayara, as lagrimas da garota turvaram sua visão, carregada de desespero ela gritou com todas as suas forças:
- Vai pro inferno seu maldito!!!


Sete flechas sete balas

   O Sol nascia enquanto o som do motor da Hornet rasgava o silencio da manhã.
    Sentia o vento contra o seu rosto, agitando os cabelos compridos, cacheados e pretos, o Rayban modelo aviador protegia-lhe os olhos, nas costas trazia uma aljava com sete flechas de penas amarelas e vermelhas, usava uma mochila com compartimento pra guardar skates, onde deixava um arco composto preto preso às tiras da mochila.
    Percorria naquele momento a rodovia Castelo Branco. Centenas de carros estavam estacionados pelo caminho, todos cobertos por camadas grossas de poeira.
    Diminuiu a velocidade ao perceber que, próximo a saída que precisaria usar, havia um ônibus tombado bloqueando parte da pista principal.
    Observava os prédios ao redor da rodovia. Cogitava quais as probabilidades de sucesso em encontrar algo que lhe fosse útil por ali, água, comida, pilhas e armas eram prioridade em sua busca, olhou o marcador e viu que ainda estava com bastante gasolina, uma preocupação a menos para aquela manhã.
    Saiu da rodovia e seguiu em direção a fabrica do Café Pelé, passando pela concessionaria da Mitsubishi Motors.
    Parou a moto em frente a guarita, caminhou até ela e percebeu uma movimentação, a porta estava trancada, mas através da pequena janela pode observar aquilo que há muito deixara de ser um homem, movimentando-se freneticamente tentando alcança-lo.
    Circundou a guarita chamando a atenção da criatura para o lado oposto da porta, completou a volta silenciosamente, enquanto soltava o arco das amarras, abriu a porta e se deparou com o segurança tentando lançar-se pra fora pela janela da guarita. Deu alguns passos pra trás e com um rápido assobio chamou a atenção da criatura que voltou-se pra ele. O zumbi caminhou em sua direção com certa dificuldade.
    Ele rapidamente retirou uma flecha da aljava e a posicionou no arco, puxou a corda até o seu limite, seus olhos encontraram os do zumbi que por sua vez receberam a flecha bem no meio deles, transpassando o seu crânio, ele tombou pesadamente pra trás com a flecha fincada na cabeça. O arqueiro caminhou até o cadáver, pisou em sua boca e puxou a flecha, arrancando-a com certa dificuldade do orifício em que se encontrava.
-Putz a ponta ficou! - reclamou ele em tom baixo, enquanto examinava a flecha, limpou ela na roupa do segurança e a pôs de volta na aljava. O zumbi usava o uniforme de uma empresa de segurança. Usava um cinto em que estava preso um coldre com uma pistola nove milímetros. Ele começou a soltar o cinto da criatura.
- Eu não costumo fazer isso no primeiro encontro.- disse ele enquanto retirava o cinto da criatura enquanto deixava a arma no chão. Ergueu-se e retirou do coldre a pistola, tirou o cartucho e percebeu que ainda haviam sete balas.
-Sete flechas, sete balas.- disse sorrindo enquanto voltava o olhar novamente para o zumbi, e percebeu que havia um colete a prova de balas protegendo-lhe o corpo.
-Agora que já estamos íntimos, você não vai se importar de me ceder o seu colete, vai? - perguntou ele enquanto punha o zumbi sentado e retirava dele o colete.
-Relaxa que eu vou dar uma higienizada nisso aqui antes de usar. - disse ele enquanto colocava a mochila com o arco no chão, colocava o cinto com o coldre em sua própria cintura e vestia o colete. Depois de vesti-lo, ele deu dois tapinhas pra tirar a poeira da peça e sorriu dizendo:
-Lavagem a seco, ta higienizado!
Ele se distraiu por um instante achando graça dos próprios comentários, colocou a aljava nas costas e em seguida a mochila, ajeitou a pistola no coldre e olhou em volta quando foi tirado de sua tranquilidade por um grito de criança:
-Sai daqui! Não encosta em mim!

Continua...

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